Copa do Mundo 2018: Mbappé bicampeou a França — e a Bélgica derrubou o Brasil
Na Rússia, uma nova geração francesa liderada por um garoto de 19 anos conquistou o bicampeonato. Luka Modric encantou o mundo com uma Croácia improvável na final. A Alemanha foi eliminada na fase de grupos pela primeira vez desde 1938. E o Brasil saiu nas quartas com um gol contra de Fernandinho que ainda dói.
Era o minuto 65 da final da Copa do Mundo de 2018, no Estádio Luzhniki em Moscou. Kylian Mbappé, com 19 anos e quatro dias, recebeu a bola no limite da área, abriu o pé direito e chutou cruzado. O goleiro Subašić não chegou. 4 a 1 para a França. A torcida francesa nas arquibancadas chorava. O mundo parava para registrar o momento: o segundo jogador mais jovem da história a marcar numa final de Copa do Mundo — só atrás de Pelé, que tinha 17 anos na final de 1958. Uma nova era havia começado diante dos olhos de todos. E o Brasil, que havia saído nas quartas de final com gol contra de Fernandinho, assistia de longe.
A Rússia, o VAR e a Copa da virada geracional
Quando a FIFA escolheu a Rússia como sede da Copa de 2018, não faltaram dúvidas e controvérsias. O país vivia isolamento político após a anexação da Crimeia, e as previsões sobre logística e segurança eram pessimistas. O que o mundo encontrou foi diferente: cidades bem preparadas, torcedores russos calorosos e um torneio que entregou emoção do primeiro ao último jogo.
A grande novidade técnica foi o VAR — árbitro de vídeo, implementado pela primeira vez numa Copa do Mundo. A tecnologia marcou pênaltis que antes passariam despercebidos, anulou gols e gerou polêmicas instantâneas. O Brasil já foi afetado logo na estreia, quando um gol de Neymar contra a Suíça foi checado pelo VAR antes de ser validado.
Mas o que ficou para a história foi a confirmação de uma virada geracional no futebol mundial. Messi e Cristiano Ronaldo — os dois maiores da era moderna — foram eliminados antes das semifinais pela primeira vez desde 2006. No lugar deles, surgiram Mbappé, Modric, De Bruyne, Hazard e uma geração de jogadores que já não precisava das sombras dos gigantes para brilhar.
O maior choque: a Alemanha campeã eliminada na fase de grupos
🇩🇪 Alemanha eliminada na fase de grupos — pela 1ª vez desde 1938
A Copa de 2018 começou com a maior zebra em décadas: a Alemanha tetracampeã e atual campeã do mundo foi eliminada na fase de grupos. Perdeu para o México por 1 a 0, empatou com a Suécia (2 a 1 com gol de Kroos nos acréscimos, que prolongou a agonia), e foi derrotada pela Coreia do Sul por 2 a 0 no jogo decisivo — quando já precisava de vitória para avançar.
O gol de Son Heung-min no último minuto, em contra-ataque, com os coreanos caindo de exaustão ao apitar o final, foi uma das cenas mais impactantes da história das Copas. Em Munique, torcedores alemães assistiam em silêncio. Na Coreia do Sul, as ruas explodiram mesmo sendo madrugada.
Era a primeira eliminação da Alemanha na fase de grupos desde 1938 — há 80 anos. O time que havia feito 7 a 1 no Brasil quatro anos antes saiu pela porta dos fundos. Müller, Özil, Boateng e Hummels — heróis de 2014 — encerrariam as carreiras na seleção logo após a Copa.
O Brasil de Tite: sólido até bater na Bélgica
O Brasil chegou à Copa de 2018 com moral renovada. Tite havia assumido a seleção em 2016, após o vexame nas Eliminatórias, e construiu uma equipe com identidade — mais organizada defensivamente, com transições rápidas e Neymar como principal referência criativa. Depois de anos sem convencer, o Brasil chegou à Rússia como um dos favoritos reais ao título.
A fase de grupos foi disputada mas satisfatória. O Brasil avançou em primeiro no grupo, apesar do susto no empate com a Suíça na estreia. Nas oitavas, despachou o México com gols de Neymar e Firmino. A seleção de Tite parecia consistente, equilibrada — diferente das gerações anteriores que dependiam demais de um único jogador.
Neymar chegou à Copa recuperado de uma fratura no metatarso e marcou gols e assistências importantes. Mas ficou também marcado por exagerar nas quedas — rolando no gramado após contatos mínimos. As imagens correram o mundo e viraram o "Neymar Challenge" nas redes sociais, com pessoas imitando as quedas dramáticas. O tema tomou proporção tão grande que ofuscou sua Copa tecnicamente boa. Anos depois, Neymar reconheceu que exagerou.
Kazan, 6 de julho de 2018 — O gol contra que parou o Brasil
🇧🇪 Bélgica 2 × 1 Brasil — Quartas de Final em Kazan
O Brasil entrou em campo como favorito. A Bélgica tinha uma geração dourada — De Bruyne, Hazard, Lukaku, Mertens, Kompany e o goleiro Courtois num dia extraordinário — mas o Brasil era mais experiente e havia chegado mais consistente ao torneio. A lógica indicava uma vitória verde-amarela.
O que aconteceu foi diferente. Logo aos 13 minutos, uma jogada belga pela direita terminou num cruzamento que Fernandinho tentou cortar — e desviou para o próprio gol. O Brasil saía perdendo por culpa própria. Aos 31 minutos, De Bruyne acertou um chute de fora da área no ângulo que Alisson não alcançou: 2 a 0.
Na segunda etapa, Renato Augusto descontou de cabeça. O Brasil pressionou. Courtois defendeu tudo que chegou — foi eleito o melhor goleiro da Copa por este e outros jogos extraordinários. No final, a Bélgica segurou: 2 a 1. Fim. A Copa do Brasil acabou nas quartas pelo terceiro torneio seguido.
Minuto a minuto: os gols de Kazan
- 13° minuto: gol contra de Fernandinho — o Brasil abriu a própria ferida
- Courtois fez 27 defesas ao longo do torneio — melhor da Copa
- Brasil eliminou nas quartas pelo 3º torneio seguido (2010, 2014, 2018)
- Neymar chorou no gramado de Kazan — mais uma Copa sem a grande decisão
- Renato Augusto descontou, mas o Brasil não tinha mais fôlego para empatar
Os protagonistas de 2018
A campanha do Brasil jogo a jogo
| Fase | Adversário | Placar | Artilheiros / Destaques |
|---|---|---|---|
| Grupo E | 🇨🇭 Suíça | 1 × 1 | Coutinho · VAR checou gol de Neymar (mantido) |
| Grupo E | 🇨🇷 Costa Rica | 2 × 0 | Coutinho, Neymar · Gols nos acréscimos |
| Grupo E | 🇷🇸 Sérvia | 2 × 0 | Paulinho, Thiago Silva · 1° do grupo |
| Oitavas | 🇲🇽 México | 2 × 0 | Neymar, Firmino · Domínio total |
| Quartas | 🇧🇪 Bélgica | 1 × 2 | Renato Augusto · Gol contra Fernandinho. Golaço De Bruyne. Fim. |
A Final: França 4 × 2 Croácia — Mbappé e a primeira final de 4 gols desde 1966
A final no Estádio Luzhniki em Moscou reuniu a favorita França e a surpreendente Croácia — que havia chegado após três prorrogações e duas disputas de pênaltis. Era David contra Golias, mas o jogo entregou muito mais do que uma simples superação.
O gol contra de Mandžukić abriu o placar para a França aos 18 minutos — o primeiro gol contra numa final de Copa da história. Perišić empatou de esquerda aos 28', mas um pênalti polêmico marcado pelo VAR (mão de Perišić) foi convertido por Griezmann ainda no primeiro tempo. Na segunda etapa, Pogba e Mbappé ampliaram. Mandžukić — o mesmo do gol contra — descontou em linda jogada individual, mas já era tarde.
Com a chuva caindo sobre Moscou durante a entrega da taça, as imagens da celebração francesa — Mbappé sob a chuva, Griezmann abraçando Pogba, Lloris com a taça — tornaram-se ícones instantâneos. A França era bicampeã mundial.
Croácia: Perišić (28'), Mandžukić (69')
78.011 espectadores · Árbitro: Néstor Pitana (Argentina)
Artilheiros da Copa 2018
-
1°
6 gols 🥇 Chuteira de OuroHarry Kane🏴 Inglaterra
-
2°
4 gols + Melhor JovemKylian Mbappé🇫🇷 França
-
2°
4 gols — revelação localDenis Cheryshev🇷🇺 Rússia
-
3°
4 gols em 4 jogos — eliminado nas oitavasCristiano Ronaldo🇵🇹 Portugal
-
3°
3 gols + 2 assistênciasAntoine Griezmann🇫🇷 França
-
5°
2 gols em 5 jogosNeymar Jr.🇧🇷 Brasil
O elenco brasileiro de 2018
| # | Jogador | Posição | Clube | Gols |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Alisson | G | Roma | — |
| 12 | Cassio | G | Corinthians | — |
| 2 | Fagner | D | Corinthians | — |
| 12 | Marcelo | D | Real Madrid | — |
| 3 | Thiago Silva (C) | D | PSG | 1 |
| 4 | Miranda | D | Inter de Milão | — |
| 14 | Militão | D | Porto | — |
| 5 | Casemiro | M | Real Madrid | — |
| 15 | Fernandinho | M | Manchester City | — |
| 8 | Renato Augusto | M | Beijing Guoan | 1 |
| 11 | Philippe Coutinho | M | Barcelona | 2 |
| 20 | Roberto Firmino | A | Liverpool | 1 |
| 19 | Willian | A | Chelsea | — |
| 9 | Gabriel Jesus | A | Manchester City | — |
| 10 | Neymar Jr. ⭐ | A | PSG | 2 |
| 11 | Douglas Costa | A | Juventus | — |
Curiosidades da Copa 2018
Com 19 anos e quatro dias, Kylian Mbappé marcou na final contra a Croácia e se tornou o segundo adolescente a balançar as redes numa decisão de Copa do Mundo. O primeiro foi Pelé, com 17 anos na final de 1958 contra a Suécia. Dois anos após a Copa, Mbappé renovaria com o PSG por um contrato histórico. Em 2022, voltaria a ser o protagonista central de uma Copa.
Desde 2008, a Bola de Ouro FIFA havia sido vencida sempre por Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo. Em 2018, Luka Modric acabou com a sequência — o primeiro jogador em uma década a interromper o duopólio. Modric ganhou o prêmio com base numa Copa extraordinária que levou a Croácia à sua primeira final histórica. A decisão foi unânime entre os eleitores.
A vitória da Coreia do Sul sobre a Alemanha no último jogo do Grupo F gerou uma celebração tão intensa em Seul que os sismógrafos da cidade registraram micro-tremores causados pelos pulos simultâneos dos torcedores — o chamado "terremoto humano". Son Heung-min marcou o segundo gol em contra-ataque no último minuto, com os coreanos caindo de exaustão. Foi um dos momentos mais emocionantes da história recente das Copas.
Neymar foi flagrado várias vezes exagerando nas quedas e rolando no gramado após contatos mínimos. As imagens viralizaram instantaneamente e criaram o "Neymar Challenge" nas redes sociais — com milhões de pessoas ao redor do mundo imitando as quedas dramáticas em compilações cômicas. O tema tomou proporções tão grandes que o próprio Neymar precisou comentar publicamente. Anos depois, admitiu que havia exagerado.
O árbitro de vídeo foi implementado pela primeira vez numa Copa do Mundo em 2018. Nos jogos da fase de grupos, o VAR marcou pênaltis que antes passariam despercebidos. O caso mais polêmico foi justamente na final: o pênalti de mão de Perišić — consultado pelo VAR e confirmado pelo árbitro Pitana — ainda divide opiniões de especialistas sobre se foi intencional. A Croácia afirmou que foi determinante para o desfecho. O debate sobre o VAR no futebol nunca mais parou.
O Japão e o Senegal terminaram o Grupo H completamente empatados: mesmos pontos, gols marcados, gols sofridos, saldo e confronto direto. O desempate foi pelo critério de fair play — o Japão tinha menos cartões. Foi a primeira vez na história das Copas que esse critério foi usado para decidir a classificação. O Japão avançou; o Senegal foi eliminado. O regulamento passou a ser estudado nos manuais de arbitragem.
A música "Three Lions", com o refrão "Football's coming home", tornou-se o hino de uma nação que acreditou sinceramente que o futebol voltaria para casa em 2018. Southgate construiu um time organizado e disciplinado que chegou às semifinais — o melhor resultado inglês desde 1990. A derrota para a Croácia na prorrogação, com gol de Mandžukić, quebrou o coração de milhões. "It's coming home" virou símbolo tanto de esperança quanto de ironia futebolística.
Uma chuva intensa caiu sobre o Estádio Luzhniki durante a cerimônia de entrega da taça. Vladimir Putin ficou seco sob um guarda-chuva oferecido por um assistente, enquanto os presidentes Macron e Collombier ficaram encharcados. Macron — já comemorando eufórico a vitória da França — abraçou os jogadores sem se importar com a chuva. As imagens viraram meme instantâneo sobre distinções de protocolo entre líderes mundiais.
Ivan Mandžukić entrou para a história com uma façanha improvável: marcou o primeiro gol contra numa final de Copa do Mundo (desviando um cruzamento para o próprio gol no 18') e, mais de uma hora depois, marcou o mais bonito gol da Croácia na partida — um chute colocado após domínio individual. Dar e tirar, no mesmo jogo, na mesma final. Uma história que nunca aconteceu antes e provavelmente nunca mais acontecerá.
Apesar de toda a desconfiança pré-Copa, a Rússia entregou um torneio bem organizado, com estádios modernos e torcedores que receberam visitantes de todo o mundo com hospitalidade surpreendente. A seleção local foi além das expectativas: eliminou a Espanha nas oitavas nos pênaltis e só caiu para a Croácia nas quartas, também nos pênaltis. Denis Cheryshev terminou como segundo artilheiro com 4 gols. O amor dos russos pelo torneio foi inesperado — e genuíno.
O legado de 2018: uma nova era e o Brasil buscando o hexa
A Copa de 2018 ficou como o torneio que anunciou uma nova era. Messi e Cristiano Ronaldo — os dois maiores jogadores da geração — foram eliminados antes das semifinais, e o espetáculo não foi menor. Modric provou que a elegância e a inteligência tática ainda têm lugar no topo. Mbappé provou que o futuro havia chegado antes do previsto. Uma nova ordem estava se instalando no futebol mundial.
Para o Brasil, 2018 foi mais uma Copa de decepção nas quartas — a terceira seguida, depois de 2010 e 2014. Tite ficou no cargo para tentar em 2022, com uma seleção mais jovem liderada por Neymar, Vinicius Jr. e Richarlison. O que aconteceria no Qatar seria, uma vez mais, a história de um hexa que não veio — desta vez, parado pela Croácia de Modric nos pênaltis.
A Alemanha começou uma reconstrução dolorosa após o vexame. A Croácia de Modric havia dado ao futebol mundial uma das lições mais bonitas das últimas décadas: um país pequeno, bem organizado, com um líder de verdade, pode chegar à final do mundo. E a França — com Mbappé, Griezmann, Kanté e Pogba — confirmou que seria a seleção dominante dos anos seguintes. A Copa de 2022 provaria que o trono ainda não estava garantido para ninguém.
- 1994: 🏆 Tetra · 1998: Vice · 2002: 🏆 Penta
- 2006: Quartas (França, Zidane) · 2010: Quartas (Holanda)
- 2014: 4° lugar — 7×1 para a Alemanha no Mineirão
- 2018: Quartas — 1×2 para a Bélgica em Kazan
- 2022: Quartas — eliminado pela Croácia nos pênaltis
- O hexa aguarda desde 2002 — mais de 20 anos de espera.
📖 Próximo da série: Copa 2022 — Messi e o título dos títulos no Qatar
No Qatar, Lionel Messi finalmente conquistou o título que faltava em sua carreira. O Brasil caiu para a Croácia nos pênaltis. A final entre Argentina e França foi a melhor da história das Copas — com Mbappé marcando um hat-trick numa virada que quase aconteceu.
Ver toda a série →Fontes: FIFA.com · CBF · UEFA · Transfermarkt · ESPN · UOL Esporte · L'Équipe · The Guardian · Wikimedia Commons
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