Copa do Mundo 1938: A França Recebe o Mundo em Meio à Sombra da Guerra

Categoria: Copa do Mundo | História do Futebol
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A Copa do Mundo de 1938 foi realizada na França entre os dias 4 e 19 de junho, e entrou para a história por ser um torneio marcado por contradições: ao mesmo tempo em que Paris brilhava como a capital cultural do mundo, a Europa vivia a tensão crescente que, pouco mais de um ano depois, explodiria na Segunda Guerra Mundial. Mesmo assim, o futebol aconteceu, e aconteceu de forma emocionante.
Como a França Ficou com a Copa de 1938
A escolha da sede não foi simples. A Alemanha de Hitler queria sediar o torneio após organizar os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim. A Argentina, por sua vez, acreditava que era sua vez pelo rodízio de continentes, já que as duas edições anteriores tinham sido na Europa (Itália, 1934) e na América do Sul (Uruguai, 1930).
Mas Jules Rimet, presidente da Fifa e francês de nascimento, enxergou uma oportunidade estratégica: sediar a Copa junto com a Exposição Internacional de Arte e Técnicas de Paris, prevista para 1937. Isso traria turistas ao país e garantia financiamento do governo francês. Para ajustar o calendário, a Copa foi antecipada um ano.
Na votação realizada durante a Olimpíada de Berlim, em agosto de 1936, os delegados se sentiram constrangidos em votar contra o anfitrião do evento olímpico e o próprio presidente da Fifa. A França levou 19 votos dos 23 disponíveis. Os argentinos abandonaram o congresso em protesto e, indignados, decidiram não participar do torneio.

Um Mundial Cheio de Deserções
A Copa de 1938 começou já com baixas importantes. Além da Argentina, o Uruguai (bicampeão em 1930) também não foi, alegando nunca ter perdoado os europeus pelo boicote à primeira edição do torneio. A Inglaterra continuava recusando participar de qualquer competição da Fifa. A Espanha estava mergulhada numa sangrenta guerra civil.
O episódio mais bizarro envolveu a Áustria. A seleção austríaca tinha se classificado, mas em março de 1938 — apenas três meses antes do início da Copa — os tanques de Hitler invadiram Viena. O país foi anexado à Alemanha pelo chamado Anschluss. Com isso, a Áustria deixou de existir como nação independente e seus melhores jogadores foram incorporados à seleção alemã. A Fifa manteve a Áustria na tabela oficial e apenas declarou sua desistência, deixando a Suécia avançar por W.O. na primeira rodada.
No total, 15 países disputaram as 16 vagas disponíveis. Cuba, as Índias Ocidentais Holandesas (atual Indonésia) e o Brasil eram os únicos representantes de fora da Europa.
O Brasil de 1938: Força Máxima pela Primeira Vez
Nas edições anteriores, o Brasil chegara às Copas de forma desorganizada. Em 1930, o time foi dividido por brigas entre paulistas e cariocas. Em 1934, o profissionalismo ainda era um problema político interno. Em 1938, pela primeira vez, a Seleção pôde contar com todos os seus melhores jogadores reunidos e com tempo para se preparar adequadamente.
O técnico Ademar Pimenta convocou 34 atletas para os treinamentos iniciais, realizados na estação de águas de Caxambu, em Minas Gerais. Depois de negociações tensas sobre salários — os jogadores reivindicaram diárias e gratificações que a confederação relutou em aceitar — o grupo embarcou no navio britânico Arlanza no dia 30 de abril de 1938. Até um cozinheiro brasileiro foi contratado na França para que os craques não sentissem falta do arroz com feijão.
Os Craques do Scratch
A delegação brasileira levou 22 jogadores à França. Os destaques eram:
- Leônidas da Silva — artilheiro da Copa, considerado o maior jogador brasileiro da época. Apelidado de Homme Gomme (Homem Borracha) pelos jornalistas franceses por sua agilidade e flexibilidade impressionantes. Inventou — ou ao menos popularizou — a bicicleta.
- Domingos da Guia — zagueiro extremamente técnico, considerado pela imprensa europeia o melhor da sua posição no torneio.
- Tim — meia de visão de jogo excepcional, chamado de Criador por um jornal francês.
- Romeu — meio-campo de precisão cirúrgica no passe.
- Perácio — atacante mineiro, bem-humorado e com um chute fortíssimo.
A Era do Rádio: A Copa que Uniu o Brasil
A Copa de 1938 foi o primeiro Mundial transmitido ao vivo por rádio para o Brasil. O locutor Leonardo Gagliano Neto narrou os jogos diretamente da beira do campo na França, com a voz chegando ao Brasil por ondas curtas. O custo de cada transmissão era equivalente ao preço de quatro carros novos da época.
Ary Barroso — compositor famoso e torcedor fanático do Flamengo — já havia inaugurado em 1937 o estilo de narrador que torce, sofre e vibra junto com o ouvinte, um jeito de narrar futebol que persiste até hoje. Nas cidades, alto-falantes foram instalados em locais públicos para que todos pudessem acompanhar os jogos, já que ter um rádio em casa ainda era privilégio de poucos.
O Torneio Jogo a Jogo
Oitavas de Final
O formato de 1938 foi totalmente eliminatório desde a primeira rodada, incluindo as oitavas de final. Empates geravam jogos extras.
Brasil 6 x 5 Polônia foi considerado desde então uma das partidas mais emocionantes da história das Copas. Leônidas marcou três gols (sendo dois na prorrogação), mas o polonês Ernest Wilimowski foi o grande protagonista do lado adversário, anotando quatro gols — o maior número de gols marcados contra o Brasil em um único jogo. O brasileiro entrou em campo usando um calção azul-bandeira e camisa de cor azul mais pálida, porque por sorteio precisou ceder as cores tradicionais ao time polonês, que também jogava de branco. Foi a única vez que a Seleção entrou sem distintivo no peito. Venceu por 6 a 5, com dois gols de Leônidas na prorrogação, incluindo o famoso episódio do “gol descalço”.
Outros resultados das oitavas: Itália 2 x 1 Noruega (na prorrogação), França 3 x 1 Bélgica, Tchecoslováquia 3 x 0 Holanda (também na prorrogação), Hungria 6 x 0 Índias Ocidentais Holandesas, Suíça 4 x 2 Alemanha (após empate no primeiro jogo), e Cuba 2 x 1 Romênia — a maior surpresa da fase, com os caribenhos eliminando os romenos no jogo extra.
Quartas de Final
Brasil 1 x 1 Tchecoslováquia — A Batalha de Bordeaux
O duelo entre brasileiros e tchecos ficou marcado pela violência. Foram quatro expulsões no total da Copa, e três aconteceram nesse jogo. Zezé Procópio foi expulso logo no primeiro minuto. Na prorrogação, Machado e o tcheco Riha trocaram sopaços e também foram expulsos. Leônidas saiu carregado após uma entrada violenta e ficou mais de cinco minutos sendo atendido. Com o empate em 1 a 1 persistindo, foi necessário um jogo de desempate.
Brasil 2 x 1 Tchecoslováquia — O Jogo da Renovação
No jogo de desempate, Ademar Pimenta surpreendeu ao escalar uma equipe completamente reformulada — à exceção de Leônidas e do goleiro Walter. O novo time era o branco, o chamado “pesado”, treinado separadamente em Caxambu. A grande figura foi Tim, elogiado por jornalistas franceses como um “criador” de jogadas. Roberto marcou o gol da vitória de voleio.
As Semifinais
Itália 2 x 1 Brasil — A Derrota Mais Dolorida
A semifinal contra a Itália, disputada em Marselha no dia 16 de junho de 1938, foi um dos episódios mais controversos e dolorosos da história da Seleção Brasileira.
O Brasil entrou em campo sem Leônidas — Ademar Pimenta poupou o artilheiro alegando que ele estava machucado, embora a decisão tenha gerado polêmica enorme na imprensa. Também faltou Tim, que havia atuado nos dois jogos contra a Tchecoslováquia em Bordeaux. Com um elenco diferente, o Brasil fez um bom primeiro tempo e chegou empatado ao intervalo.
No segundo tempo, aos 6 minutos, Piola se antecipou a Domingos da Guia e tocou para Colaussi, que chutou forte e rasteiro, abrindo o placar. Aos 9 minutos, aconteceu o lance mais comentado da Copa no Brasil: Domingos chutou Piola dentro da área, fora da bola. O juiz suíço Wuthrich marcou pênalti. Meazza cobrou e fez 2 a 0. Romeu ainda diminuiu nos acréscimos com uma bela jogada individual, mas a Itália segurou o resultado e passou para a final.
O Brasil fez uma reclamação formal à Fifa contestando o pênalti, mas a entidade não considerou sequer a possibilidade de anulação do jogo.
Hungria 5 x 1 Suécia
Na outra semifinal, a Hungria mostrou seu poder e eliminou os suecos com relativa facilidade, garantindo lugar na decisão.
A Final: Itália Bicampeã com Merecimento
Itália 4 x 2 Hungria
Data: 19 de junho de 1938
Estádio: Olympique Colombes, Paris
Público: 45.124 torcedores

A Itália chegou à final como a grande favorita. Comparada ao título de 1934, a Azzurra de 1938 era ainda mais forte — com apenas Meazza e Ferrari remanescentes como titulares da final anterior. O técnico Vittorio Pozzo havia renovado a equipe com jogadores mais jovens e uma dupla de zaga mais segura, Foni e Rava, que havia sido promovida da equipe campeã olímpica de 1936.
Do lado húngaro, a presença intimidadora de Benito Mussolini pairava sobre o jogo. Na véspera da final, o técnico Pozzo recebeu um telegrama assinado pelo secretário-geral do Partido Fascista italiano com a mensagem clara do ditador: vencer ou morrer. Os jogadores italianos preferiram a primeira opção.
O resumo dos gols:
- Itália 1 x 0 — Colaussi abriu logo aos 6 minutos, aproveitando a desatenção da defesa húngara.
- Hungria 1 x 1 — Titkos empatou dois minutos depois em uma bela jogada.
- Itália 2 x 1 — Piola recolocou a Itália na frente com um gol sincronizado de bela elaboração coletiva.
- Itália 3 x 1 — Colaussi ampliou aos 35 minutos do primeiro tempo após receber de Meazza e correr 30 metros.
- Hungria 2 x 3 — Sárosi diminuiu no segundo tempo, dando esperança aos húngaros.
- Itália 4 x 2 — Piola fechou a conta aos 37 minutos do segundo tempo, cruzando da direita e chutando prensado no cantinho.

A Itália sagrou-se bicampeã de forma merecida. Ao receber o troféu nas tribunas do estádio, o capitão Meazza cumprimentou os presentes com a saudação fascista, recebendo vaias da torcida francesa — foi a única vez na história que um capitão campeão foi vaiado ao levantar a taça.
Brasil x Suécia: A Virada do Terceiro Lugar
Mesmo com a eliminação dolorosa, o Brasil disputou a medalha de bronze contra a Suécia no dia 19 de junho, em Bordeaux.

Brasil 4 x 2 Suécia (após 1 x 1 no tempo normal)
A Seleção saiu perdendo por 2 a 0 e virou a partida de forma espetacular. Leônidas, liberado para jogar após a semifinal, foi o grande nome: marcou dois gols, incluindo um de 30 metros. Perácio selou a vitória e o terceiro lugar. O técnico da Suécia, ao fim do jogo, reconheceu que o Brasil havia sido a seleção mais prejudicada pelas longas viagens de trem em toda a história das Copas — ao todo, a Seleção percorreu 1.764 quilômetros entre as cidades dos seus jogos.
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Os Números da Copa de 1938
| Estatística | Dado |
|---|---|
| Total de jogos | 18 |
| Total de gols | 84 |
| Média de gols por jogo | 4,7 |
| Público total | 365.000 torcedores |
| Artilheiro | Leônidas da Silva (Brasil) — 7 gols |
| Vice-artilheiros | Piola (Itália), Sárosi e Zsengellér (Hungria) — 5 gols cada |
| Expulsões | 4 (recorde para a época) |
| Campeão | Itália |
| Vice-campeão | Hungria |
| Terceiro lugar | Brasil |
| Quarto lugar | Suécia |
Curiosidades da Copa de 1938 que Você Não Sabia
1. A Áustria foi à Copa sem jogar um único jogo. Após ser anexada pela Alemanha, manteve a vaga mas foi declarada desistente. A Suécia avançou sem entrar em campo.
2. Cuba foi a maior surpresa do torneio. O pequeno país caribenho eliminou a Romênia nas oitavas de final e só parou diante da poderosa Suécia nas quartas, sendo goleado por 8 a 0.
3. Leônidas jogou um jogo descalço. No Brasil 6 x 5 Polônia, o atacante perdeu a chuteira no campo lamacento e, segundo relatos da época, continuou jogando sem ela. O juiz pediu que calçasse nova chuteira antes de continuar.
4. Foi o primeiro Mundial transmitido ao vivo por rádio para o Brasil. Gagliano Neto narrou os jogos diretamente da França por ondas curtas, e o custo de cada transmissão equivalia ao preço de quatro carros novos.
5. O pênalti mais polêmico da história. O pênalti marcado contra Domingos da Guia na semifinal Brasil x Itália nunca foi filmado. Até hoje existe controvérsia: a versão aceita fora do Brasil é que houve falta; a versão brasileira é que Domingos simplesmente travou o adversário com o corpo, sem usar as mãos.
6. A bola tinha um bico de borracha. Até 1931, as bolas eram de couro com um bico que machucava os jogadores na cabeça. Em 1938, a nova “superball” com tento externo era usada pela primeira vez em todas as partidas de uma Copa, o que aumentou o número de gols de cabeça — 17 dos 84 gols totais.
7. Mussolini telegrafou “vencer ou morrer”. Na véspera da final, o ditador italiano enviou pessoalmente um telegrama ao técnico Vittorio Pozzo exigindo o título. Os jogadores venceram a partida por 4 a 2.
8. A torcida francesa adotou o Brasil após a eliminação da França. Com a seleção anfitriã fora do torneio depois de perder para a Itália nas quartas, o público parisiense passou a torcer pelo Brasil como seu novo time do coração.
9. Leônidas virou marca de chocolate. Em agosto de 1938, com o Brasil ainda eufórico com o desempenho do artilheiro na Copa, a Lacta lançou a barra de chocolate “Diamante Negro”, aproveitando o apelido uruguaio do craque — que, curiosamente, não tinha a propriedade legal do nome e não recebeu royalties pelas vendas posteriores.
10. O Brasil percorreu quase 1.800 km de trem. Enquanto a Itália tinha um avião reservado para possíveis deslocamentos (com a bênção de Mussolini), a Seleção Brasileira foi de trem entre todas as cidades: Estrasburgo, Bordeaux, Marselha e de volta a Bordeaux — um total de 1.764 quilômetros.
11. Nessa copa não foi produzido um filme oficial pela Fifa, porém a Federação Francesa providenciou um filme que serve de registro histórico. Nesse link de uma página do facebook chamada Football Nostagia é possível assistir ao filme: https://www.facebook.com/watch/?v=3613218858707181
O Legado da Copa de 1938
A Copa da França foi a última antes de um intervalo forçado de doze anos: a Segunda Guerra Mundial cancelou as edições de 1942 e 1946. Quando o torneio retornou, em 1950 — justamente no Brasil —, o mundo do futebol era outro.
Para o futebol brasileiro, a Copa de 1938 foi um divisor de águas. O terceiro lugar reconhecido mundialmente, somado à revelação de Leônidas para o mundo, plantou a semente do que viria a seguir. O Brasil chegou à Copa de 1950 como anfitrião e favorito, alimentado pela crença — e pela tragédia que ficaria conhecida como Maracanazo. Mas essa é outra história.
A Itália, bicampeã, consolidou sua posição como a maior potência do futebol mundial daquele período. O técnico Vittorio Pozzo tornou-se o único treinador da história a conquistar dois títulos mundiais consecutivos — marca que permanece inigualada até hoje.
E Leônidas da Silva, o Diamante Negro, voltou ao Brasil carregado nos ombros, com o sapato arrancado por um torcedor como lembrança, reconhecido como o melhor jogador do mundo. Sua história é um dos capítulos mais brilhantes do futebol brasileiro — e merece ser contada a cada nova geração.
Tabela da Copa de 1938 (a partir das Oitavas de final)
| Fase | Jogo | Placar |
|---|---|---|
| Oitavas | Suíça 1 x 1 Alemanha | Replay: Suíça 4 x 2 Alemanha |
| Oitavas | Brasil 6 x 5 Polônia | — |
| Oitavas | Itália 2 x 1 Noruega | Na prorrogação |
| Oitavas | França 3 x 1 Bélgica | — |
| Oitavas | Tchecoslováquia 3 x 0 Holanda | Na prorrogação |
| Oitavas | Hungria 6 x 0 Índias Ocidentais Holandesas | — |
| Oitavas | Cuba 3 x 3 Romênia | Replay: Cuba 2 x 1 Romênia |
| Oitavas | Suécia W.O. Áustria | — |
| Quartas | Suécia 8 x 0 Cuba | — |
| Quartas | Hungria 2 x 0 Suíça | — |
| Quartas | Itália 3 x 1 França | — |
| Quartas | Brasil 1 x 1 Tchecoslováquia | Replay: Brasil 2 x 1 Tchecoslováquia |
| Semifinais | Itália 2 x 1 Brasil | — |
| Semifinais | Hungria 5 x 1 Suécia | — |
| 3º lugar | Brasil 4 x 2 Suécia | Na prorrogação |
| Final | Itália 4 x 2 Hungria | — |
Gostou de mergulhar nessa história? Explore também nossa Linha do Tempo das Copas do Mundo e confira o perfil completo de Leônidas da Silva, o maior jogador brasileiro antes de Pelé.
Fontes: Max Gehringer, “A Saga da Jules Rimet — A História das Copas de 1930 a 1970”, Editora Abril / Placar (2006), Wikipedia, Almanaque completo das Copas do Mundo – Evanildo da Silveira, IAs.
