Itália, 1990
O Gol de Caniggia
A Copa mais defensiva da história reuniu Schillaci, Roger Milla, as lágrimas de Gazza e a grandeza de Matthäus. E eliminou o Brasil com um único gol — o cabeceio de Claudio Caniggia que parou um país inteiro.
O Palco — Itália 1990
A décima quarta Copa do Mundo foi realizada na Itália, entre 8 de junho e 8 de julho de 1990. Doze cidades-sede, 52 partidas e uma atmosfera única: o país que inventou o Catenaccio recebia o maior evento do futebol mundial — e o torneio acabou refletindo exatamente essa filosofia, com a menor média de gols por jogo da história das Copas até então: apenas 2,21.
O mundo entrou na Copa de 1990 com expectativas enormes. Maradona era o maior jogador do planeta, o Brasil vinha de uma geração de ouro frustrada em 1982 e 1986, e a Alemanha buscava seu terceiro título. O que o público recebeu foi uma Copa marcada pelo pragmatismo extremo, pelas expulsões, pelos pênaltis — e por momentos de emoção que compensaram tudo isso.
"Era uma Copa feia, mas inesquecível. O futebol foi péssimo durante boa parte do torneio — e mesmo assim ninguém conseguiu tirar os olhos da televisão." — síntese comum dos cronistas que cobriram a Copa de 1990.
O formato manteve as 24 seleções em seis grupos de quatro, com os dois primeiros de cada grupo mais os quatro melhores terceiros avançando às oitavas de final — gerando um mata-mata de 16 equipes. Foram disputadas quatro semifinais e uma final decidida nos pênaltis — algo inédito até então.
O Brasil de Lazaroni — A Libero e a Polêmica
O Brasil chegou à Copa de 1990 com o técnico Sebastião Lazaroni e um sistema tático que gerou enorme polêmica antes mesmo do início do torneio: o esquema com libero — um zagueiro livre, sem marcação individual, que recuava atrás da linha defensiva. Era moderno para os padrões europeus, mas soou como um insulto à tradição ofensiva do futebol brasileiro.
Para piorar, Romário — considerado o melhor atacante do país naquele momento — foi cortado da convocação por desentendimentos com Lazaroni. A ausência do baixinho de Olaria foi sentida em campo e deplorada pela torcida. Com Careca e Müller no ataque e Dunga como capitão de uma equipe mais física e menos técnica do que a de 1982, o Brasil venceu os três jogos da fase de grupos — e caiu logo nas oitavas.
Fase de grupos — Grupo C
Oitavas de final — O Clássico das Américas
O Gol de Caniggia
O Brasil entrou em campo como favorito claro. A Argentina chegava em crise — havia perdido para os anfitriões da Itália na fase de grupos e apresentava uma equipe bem abaixo do nível de 1986. Mas Maradona ainda estava lá. E com Maradona, qualquer coisa era possível.
O jogo foi equilibrado e tenso, como todo clássico das Américas. Aos 81 minutos, Maradona recebeu na esquerda, driblou dois marcadores com sua habilidade singular e rolou para Claudio Caniggia, que chegou em velocidade e cabeceou para o fundo do gol de Taffarel. O silêncio tomou conta dos estádios do Brasil.
O Brasil ainda tentou reagir, mas a Argentina — mesmo sem brilhar — segurou o resultado até o apito final. Mais uma vez, a seleção brasileira caía numa Copa sem conquistar o tetracampeonato que o país inteiro aguardava. A diferença de 1990 para 1982 era uma: em Sarriá havia beleza na derrota. Em Turim, havia apenas dor.
O Gol — Minuto a Minuto
As Revelações — Schillaci, Roger Milla e Gazza
O atacante siciliano da Juventus era praticamente desconhecido fora da Itália antes da Copa. Entrou como reserva, marcou na estreia e nunca mais parou. Terminou com 6 gols e venceu a Chuteira de Ouro e a Bola de Ouro — o único jogador a ganhar os dois prêmios individuais numa mesma Copa. Apelido imediato: Totò Schillaci, o herói improváveldo povo italiano.
O camaronês de 38 anos havia se aposentado do futebol quando o presidente de Camarões pediu pessoalmente que ele voltasse para a Copa. Milla aceitou — e fez história. Entrava como substituto, marcava, corria para a bandeirinha de escanteio e dançava numa comemoração que virou símbolo. Camarões chegou às quartas de final, eliminando Argentina e Colômbia. Roger Milla é até hoje o jogador mais velho a marcar numa Copa.
O meia inglês de 23 anos foi o jogador mais emocionante da Copa. Brilhante, impulsivo e impossível de ignorar, Gazza encantou o mundo com sua genialidade — e partiu o coração de todos quando, na semifinal contra a Alemanha, recebeu um cartão amarelo que o tiraria da final (caso a Inglaterra passasse). Suas lágrimas transmitidas ao vivo são uma das imagens mais icônicas da história do futebol.
Craques da Copa 1990
A grande revelação da Copa. Desconhecido antes do torneio, terminou com Chuteira de Ouro e Bola de Ouro. Seus 6 gols e as comemorações vibrantes fizeram de Schillaci o ídolo improvávelda Itália de 1990. Nunca mais repetiu tal nível numa grande competição.
O capitão da Alemanha foi o melhor jogador da Copa para muitos críticos. Potente, incansável e tecnicamente impecável, Matthäus governou o meio-campo alemão em todos os jogos. Foi o segundo a ganhar a Bola de Ouro FIFA naquele ano (ficou com o prêmio da FIFA enquanto Schillaci ganhou o da France Football).
A Copa de 1990 foi sua última grande Copa — e foi uma obra de resistência. Com uma equipe muito inferior à de 1986, Maradona carregou a Argentina nas costas até a final. Seu passe para Caniggia eliminou o Brasil. Chorou durante o hino italiano em Nápoles, sua cidade adotiva.
O centroavante de cabelos loiros que entrou para a história do futebol brasileiro. Veloz, elegante e letal, Caniggia marcou o único gol da vitória argentina sobre o Brasil nas oitavas — um cabeceio que parou um país.
O lateral que decidiu a Copa com um pênalti. Sua cobrança aos 85 minutos da final contra a Argentina — que havia desperdiçado o próprio pênalti momentos antes — foi o único gol do jogo. Brehme é campeão mundial com um gol de pênalti. Simplesmente assim.
O artilheiro do Brasil na fase de grupos. Careca era um centroavante completo — bom de cabeça, veloz e técnico. Foi um dos poucos brasileiros a jogar no seu nível na Copa de 1990. A derrota para a Argentina deixou uma cicatriz que ele carrega até hoje.
Aposentado, voltou a pedido do presidente do país. Entrava como substituto, dançava na bandeirinha após cada gol e encantava o mundo. Camarões eliminou Argentina e Colômbia. Roger Milla é o símbolo eterno de que o futebol não tem limite de idade para a magia.
O gênio impulsivo que chorou ao vivo numa semifinal de Copa. Gazza era brilhante, desequilibrante e absolutamente imprevisível. Suas lágrimas após receber o cartão que o tiraria de uma hipotética final tornaram-se uma das imagens mais emocionantes da história do futebol.
Artilharia — Copa 1990
A Final — Alemanha 1 × 0 Argentina
A final de 1990 é considerada a pior final da história das Copas do Mundo — e esse julgamento é praticamente unânime. Disputada em 8 de julho de 1990, no Estádio Olímpico de Roma, entre Alemanha Ocidental e Argentina, a partida foi um espetáculo de mau futebol, nervosismo e catimba.
A Argentina chegou à final enfraquecida: havia passado pelas semifinais nos pênaltis, perdia jogadores por suspensão e chegou ao jogo mais importante sem sequer parecer uma equipe de nível mundial. O único gol saiu aos 85 minutos, quando Roberto Sensini fez falta em Rudi Völler dentro da área e Andreas Brehme cobrou o pênalti com categoria, deslocando Goycochea.
Além do resultado, a final ficou marcada pelas duas expulsões argentinas — Monzón (o primeiro jogador a ser expulso numa final de Copa) e Dezotti — e pelo desespero de Maradona, que chorou no campo ao final e foi flagrado em close pela TV, numa cena que encerrou melancolicamente uma era do futebol mundial.
Franz Beckenbauer tornou-se o único na história a conquistar a Copa do Mundo como jogador (1974) e como técnico (1990) — e os dois títulos foram com a Alemanha. Um feito que nenhum outro alcançou.
Classificação Final
| Pos | Seleção | J | V | E | D | GP | GC | Saldo |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1° | 🇩🇪 Alemanha Ocidental | 7 | 6 | 1 | 0 | 15 | 5 | +10 |
| 2° | 🇦🇷 Argentina | 7 | 3 | 3 | 1 | 5 | 4 | +1 |
| 3° | 🇮🇹 Itália | 7 | 5 | 1 | 1 | 10 | 3 | +7 |
| 4° | 🏴 Inglaterra | 7 | 3 | 3 | 1 | 8 | 6 | +2 |
| oitavas | 🇧🇷 Brasil | 4 | 3 | 0 | 1 | 4 | 2 | +2 |
| oitavas | 🇨🇲 Camarões | 5 | 3 | 0 | 2 | 6 | 9 | -3 |
* Brasil eliminou pelo placar mínimo (0 × 1) nas oitavas de final
10 Curiosidades da Copa 1990
A Copa com menor média de gols da história. As 52 partidas de 1990 produziram apenas 115 gols — uma média de 2,21 por jogo. O recorde negativo foi tão marcante que a FIFA mudou a regra do gol de fora da área e começou a punir mais o tranco por trás, para estimular o futebol ofensivo.
Beckenbauer ganhou a Copa como jogador e como técnico. Franz Beckenbauer é o único ser humano na história do futebol a conquistar a Copa do Mundo como jogador (1974, com a Alemanha) e como técnico (1990, com a mesma Alemanha). Um feito que permanece único.
Romário foi cortado antes da Copa. O atacante do PSV, considerado o melhor do Brasil naquele momento, foi cortado por Lazaroni por supostos problemas de condicionamento e disciplina. Em 1994, com Romário, o Brasil seria tetracampeão. A exclusão de 1990 tornou-se um dos maiores erros de convocação da história verde-amarela.
Camarões venceu a campeã Argentina na abertura. A Copa começou com uma das maiores zebras da história: Camarões derrotou a Argentina bicampeã por 1 a 0 na partida inaugural. François Omam-Biyik marcou o gol. O feito de Camarões em 1990 abriu os olhos do mundo para o futebol africano.
As lágrimas de Gazza pararam a Inglaterra. Paul Gascoigne recebeu um cartão amarelo na semifinal contra a Alemanha que o tiraria de uma possível final. Ao perceber, começou a chorar em campo — ao vivo, transmitido para o mundo. As lágrimas de Gazza tornaram-se símbolo da Copa de 1990.
Monzón foi o primeiro expulso numa final de Copa. Pedro Monzón, da Argentina, foi expulso aos 64 minutos da final — o primeiro jogador na história das Copas a receber cartão vermelho numa final. Gustavo Dezotti, também argentino, foi o segundo, aos 86 minutos do mesmo jogo.
Roger Milla é até hoje o jogador mais velho a marcar numa Copa. Com 38 anos — alguns pesquisadores dizem que tinha até mais —, o camaronês marcou 4 gols no torneio. Voltou em 1994, aos 42 anos, e marcou mais um. Seu recorde de jogador mais velho a balançar as redes numa Copa permanece intacto.
Maradona chorou durante o hino italiano. A Argentina jogou a semifinal em Nápoles — a cidade onde Maradona era ídolo máximo pelo Napoli. Antes do jogo contra os anfitriões da Itália, Diego chorou emocionado durante o hino italiano. Nápoles ficou dividida: cidade italiana, ídolo argentino.
Schillaci nunca mais brilhou assim. Após a Copa, Totò Schillaci nunca repetiu o desempenho extraordinário de 1990. Passou por clubes menores e se aposentou sem conquistar nada próximo ao que alcançou naquele torneio. A Copa de 1990 foi seu maior — e único — momento de glória mundial.
"Notti Magiche" — a música símbolo da Copa. Un'estate italiana, cantada por Gianna Nannini e Edoardo Bennato, tornou-se o hino não-oficial da Copa de 1990. Décadas depois, a melodia ainda provoca arrepios em quem viveu aquele torneio — e virou trilha sonora de uma geração de torcedores ao redor do mundo.
O Legado de 1990
A Copa de 1990 é um paradoxo. Foi a mais defensiva, a de menor média de gols, a que produziu a pior final da história — e ainda assim é lembrada com enorme carinho por uma geração inteira. Roger Milla dançando. Gazza chorando. Schillaci de braços abertos. Maradona arrastando uma Argentina em crise até a final. São imagens que ficaram para sempre.
Para o Brasil, 1990 foi o terceiro fracasso consecutivo — depois de 1982 e 1986 — na busca pelo tetracampeonato. A geração de Zico e Sócrates havia passado. Lazaroni e seu libero saíram pela porta dos fundos. O país precisava de uma nova identidade. Ela viria em 1994, nos Estados Unidos, com Romário, Bebeto e Mazinho — e com a conquista que acabou com mais de duas décadas de jejum.
A Copa de 1990 também forçou a FIFA a agir. As novas regras introduzidas após o torneio — a proibição do recuo para o goleiro pegar com a mão, a expansão para 32 seleções, o golden goal — foram diretamente influenciadas pelo futebol ultra-defensivo que o mundo testemunhou na Itália. Às vezes, o pior torneio produz as melhores mudanças.
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