Copa do Mundo 1986: a Mão de Deus — Maradona e a Copa de um homem só
No México, Diego Armando Maradona entregou ao mundo os dois gols mais famosos da história: um com a mão, outro com os pés — eleito o Gol do Século. A Argentina foi campeã, mas a Copa foi de Maradona. E o Brasil? Deu adeus nos pênaltis, com Sócrates, Zico e uma das seleções mais bonitas que nunca foram campeãs.
Era 22 de junho de 1986, Estádio Azteca, Cidade do México. Quartas de final: Argentina × Inglaterra. Quatro anos após a Guerra das Malvinas, dois países que se odiavam se encontravam em campo. No segundo tempo, Maradona tocou a bola com a mão esquerda e balançou as redes. Quando o árbitro validou, ele correu para comemorar sabendo exatamente o que havia feito. "Foi um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus", disse depois. Quatro minutos depois, recebeu no meio de campo, driblou cinco ingleses e o goleiro e marcou o que a FIFA elegeria décadas depois como o Gol do Século. Em um único jogo, em um único segundo tempo, Diego Maradona produziu os dois gols mais discutidos e mais admirados da história do futebol. Aquela Copa já era dele.
A Copa que foi para o México duas vezes
A Copa de 1986 estava originalmente prevista para a Colômbia, que renunciou à sede em 1982 alegando dificuldades econômicas. O México — que já havia organizado a Copa de 1970 — assumiu a organização com apenas quatro anos de antecedência. E como se não bastasse a pressão da logística, em setembro de 1985, um terremoto de magnitude 8,1 devastou a Cidade do México, matando mais de 10 mil pessoas e destruindo partes da cidade. A Copa foi mantida.
O torneio estreou com o maior número de seleções da história até então: 24 equipes, divididas em 6 grupos de 4. O formato era generoso — os quatro melhores terceiros colocados também avançavam, o que tornava a eliminação precoce difícil para as grandes seleções.
E havia um contexto político explosivo: a Guerra das Malvinas de 1982, entre Argentina e Inglaterra, havia deixado cicatrizes profundas. Quando os dois países foram sorteados no mesmo chaveamento, o mundo sabia que aquele confronto seria muito mais do que futebol.
O México se tornou o primeiro país a sediar duas Copas do Mundo — 1970 e 1986. A altitude da Cidade do México (2.240m) e o calor intenso novamente foram desafios para as seleções europeias, favorecendo os times sul-americanos. A final de 1986, assim como a de 1970, foi disputada no Estádio Azteca.
Maradona: o maior espetáculo individual da história das Copas
Diego Armando Maradona chegou ao México com 25 anos e a reputação de melhor jogador do mundo — título que dividia com Michel Platini. A Copa de 1982, na Espanha, havia sido frustrante: expulso nas quartas, incapaz de carregar a Argentina sozinho. Em 1986, foi diferente. Era um Maradona mais maduro, mais completo e determinado a provar ao mundo o que era capaz.
Em seis jogos, Maradona marcou 5 gols e deu 5 assistências — participou diretamente de 10 dos 14 gols da Argentina. Toda vez que tocava na bola, algo extraordinário acontecia. Mas foi num único jogo, numa única tarde de junho, que ele entregou ao futebol os dois momentos mais memoráveis de toda a história das Copas.
Aos 51 minutos do segundo tempo, Maradona e o goleiro inglês Peter Shilton subiram pela mesma bola. Maradona, 1,65m, saltou e tocou com o punho esquerdo levantado acima da cabeça — tão sutil que o árbitro tunisiano Ali Bin Nasser não viu. O gol foi validado. No vestiário, Maradona disse que foi "um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus". O árbitro nunca mais apitou uma Copa do Mundo. Peter Shilton ficou furioso pelo resto da vida. A "Mão de Deus" tornou-se o gol mais polêmico da história do futebol.
Quatro minutos depois da mão, Maradona recebeu a bola no meio de campo argentino, virado para seu próprio gol. Em 11 segundos, avançou 60 metros, driblou Peter Beardsley, Peter Reid, Terry Butcher (duas vezes) e Kenny Sansom, e finalizou antes que Shilton pudesse reagir. Cinco jogadores driblados, 11 segundos, 60 metros percorridos. Em 2002, a FIFA realizou uma votação pela internet para eleger o Gol do Século — mais de um milhão de votos foram registrados, e Maradona ganhou com folga. Até hoje, nenhum gol em Copa do Mundo chegou perto.
Os protagonistas de 1986
O Brasil de 1986: a segunda seleção mais bonita que não foi campeã
🇧🇷 O Escrete de Ouro de Telê Santana
O Brasil de 1986 era considerado por muitos o favorito ao título. Telê Santana havia construído uma das seleções mais ofensivas e criativas da história — uma evolução direta do Brasil de 1982, que havia encantado o mundo na Espanha antes de cair para a Itália. Com Sócrates, Zico, Falcão e Junior, o time tinha um meio-campo de nível raramente visto no futebol mundial.
Na fase de grupos, o Brasil foi brilhante: goleou a Espanha por 1 a 0, venceu Argélia por 1 a 0 e atropelou a Irlanda do Norte por 3 a 0. Nas oitavas, despachou a Polônia por 4 a 0 num espetáculo — Josimar marcou um dos gols mais bonitos da Copa. Nas quartas, encontrou a França de Platini. 0 a 0 no tempo normal e na prorrogação. Pênaltis.
Sócrates bateu o primeiro — Bats defendeu. Platini converteu. Zico entrou no segundo tempo, foi ao ponto de pênalti com a Copa nas mãos — e Bats defendeu novamente. A França venceu por 4 a 3 nos pênaltis. O Brasil foi eliminado pela primeira vez na história por cobranças alternadas. Uma geração inteira chorou.
Todos os jogos do Brasil em 1986
| Fase | Adversário | Placar | Artilheiros (BRA) |
|---|---|---|---|
| Grupo C | 🇪🇸 Espanha | 1 × 0 | Sócrates |
| Grupo C | 🇩🇿 Argélia | 1 × 0 | Careca |
| Grupo C | 🇮🇪 Irlanda do Norte | 3 × 0 | Careca (2), Josimar |
| Oitavas | 🇵🇱 Polônia | 4 × 0 | Sócrates, Josimar, Edinho, Careca |
| Quartas | 🇫🇷 França | 0 × 0 (pen.) | Eliminado nos pênaltis (3×4) |
- Sócrates cobrou — Bats defendeu
- Platini converteu para a França
- Alemão converteu para o Brasil
- Amoros converteu para a França
- Zico (substituto) cobrou — Bats defendeu novamente
- França venceu por 4 a 3 nos pênaltis
Foi a primeira vez na história que o Brasil foi eliminado de uma Copa por pênaltis. O goleiro francês Joël Bats defendeu duas cobranças e entrou para sempre no pesadelo do futebol brasileiro.
Argentina: de Maradona à final do Azteca
Após destruir a Inglaterra nas quartas com os dois gols históricos, a Argentina atropelou a Bélgica na semifinal por 2 a 0 — com Maradona marcando dois gols novamente, ambos de qualidade excepcional. Na final, o adversário seria a Alemanha Ocidental, que havia eliminado a França numa semifinal dramática.
A final foi um jogo de emoções. A Argentina abriu 2 a 0 com gols de Brown e Valdano. A Alemanha virou para 2 a 2 nos minutos finais com gols de Rummenigge e Völler. E então, aos 83 minutos, Maradona recebeu e deu um passe milimétrico para Burruchaga, que partiu sozinho contra o goleiro Schumacher e fez o 3 a 2 definitivo. Argentina bicampeã.
Linha do tempo: os gols da final
Alemanha: Rummenigge (74'), Völler (81')
114.600 espectadores · Árbitro: Romualdo Arppi Filho (Brasil 🇧🇷)
Romualdo Arppi Filho, árbitro paulista, foi escolhido para apitar a final entre Argentina e Alemanha Ocidental — considerada a partida mais importante do mundo. Foi a única vez na história que um brasileiro apitou uma final de Copa do Mundo. Arppi Filho foi elogiado pela condução segura do jogo em um clima de altíssima tensão.
Artilheiros da Copa 1986
-
1°
6 gols 🥇 Chuteira de OuroGary Lineker🏴 Inglaterra
-
2°
5 gols + 5 assist. = MVPDiego Maradona🇦🇷 Argentina
-
3°
5 golsEmilio Butragueño🇪🇸 Espanha
-
4°
5 gols — melhor do BrasilCareca🇧🇷 Brasil
-
5°
5 golsJorge Valdano🇦🇷 Argentina
O elenco brasileiro de 1986
| # | Jogador | Posição | Clube | Gols |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Carlos | G | Athletico-PR | — |
| 12 | Acácio | G | Grêmio | — |
| 2 | Leandro | D | Flamengo | — |
| 3 | Junior | D | Torino | — |
| 4 | Edinho | D | Udinese | 1 |
| 6 | Branco | D | Porto | — |
| 5 | Mauro Galvão | D | Flamengo | — |
| 8 | Sócrates (C) | M | Fiorentina | 2 |
| 10 | Zico | M | Udinese | — |
| 16 | Falcão | M | Roma | — |
| 14 | Elzo | M | Grêmio | — |
| 18 | Alemão | M | Athletico-PR | — |
| 15 | Josimar | A | Flamengo | 2 |
| 11 | Careca | A | São Paulo | 5 |
| 17 | Casagrande | A | Corinthians | — |
| 20 | Müller | A | São Paulo | — |
Curiosidades da Copa 1986
O árbitro tunisiano Ali Bin Nasser validou o gol sem perceber a mão. A Fifa não revisou. O gol ficou. Maradona admitiu na coletiva imediatamente depois, com a famosa frase sobre a "mão de Deus". A FIFA jamais anulou o gol. O árbitro Bin Nasser nunca mais apitou um jogo oficial de Copa. Peter Shilton recusou, 35 anos depois, o pedido de Maradona para se reconciliar antes da morte do argentino em 2020.
Maradona percorreu 60 metros em 11 segundos, driblou 5 jogadores (Beardsley, Reid, Butcher duas vezes e Sansom) além do goleiro Shilton, e deu 12 toques na bola. A velocidade média no trecho final foi de 32 km/h. Em 2002, recebeu 53% dos votos numa eleição da FIFA com mais de 1 milhão de participantes para o Gol do Século. Nunca foi superado.
Josimar, lateral-direito do Flamengo, era praticamente desconhecido fora do Brasil quando entrou como titular na Copa de 1986. Contra a Irlanda do Norte, recebeu a bola na direita, cortou para o meio e bateu de canhota no ângulo superior esquerdo — um gol espetacular que rodou o mundo. Repetiu a dose contra a Polônia. No dia seguinte ao primeiro gol, tinha propostas de clubes europeus. Real Madrid e Barcelona brigaram pela sua contratação.
Paulo Roberto Falcão, eleito o melhor jogador do mundo em 1982, viajou para o México como titular esperado do Brasil. Mas uma lesão no joelho o tirou dos jogos decisivos — ele entrou apenas como substituto em algumas partidas. Muitos especialistas acreditam que, com Falcão em plena forma, o Brasil seria muito mais difícil de eliminar nos pênaltis contra a França. A história do que poderia ter sido persegue os torcedores até hoje.
O goleiro francês Joël Bats defendeu os pênaltis de Sócrates e Zico nas quartas de final — dois dos maiores jogadores do mundo naquele momento. Nunca havia feito nada tão importante na carreira. Na semifinal, a França perdeu para a Alemanha também nos pênaltis — e desta vez Bats não conseguiu defender nenhum. Saiu da Copa como herói contra o Brasil e como homem normal contra os alemães.
Em setembro de 1985, menos de um ano antes da Copa, um terremoto de 8,1 graus devastou a Cidade do México e matou mais de 10 mil pessoas. Partes do Azteca foram danificadas. A FIFA avaliou transferir a Copa para outro país. O México insistiu, reconstruiu e realizou o torneio. É a única Copa da história organizada num país que sofreu uma catástrofe natural de grande porte poucos meses antes do início.
Em 1982, Alemanha Ocidental e França disputaram uma semifinal épica — também decidida nos pênaltis, também vencida pelos alemães. Em 1986, o roteiro se repetiu na semifinal: 0 a 0 no tempo normal, prorrogação sem gols, pênaltis — e Alemanha novamente. A França perdeu duas semifinais de Copa seguidas da mesma forma, para o mesmo adversário. Platini, que havia convertido contra o Brasil, perdeu o seu na semifinal.
A Copa de 1986 foi transmitida para mais de 160 países — recorde para a época. A audiência global estimada foi de 13,5 bilhões de espectadores acumulados ao longo de todo o torneio. Os gols de Maradona contra a Inglaterra foram vistos ao vivo ou em replay por mais de 500 milhões de pessoas nos dias seguintes. Foi a Copa que transformou o futebol num fenômeno verdadeiramente planetário, em uma escala nunca vista antes.
Emilio Butragueño, atacante espanhol do Real Madrid, marcou 4 gols em um único jogo — Espanha 5 × 1 Dinamarca nas oitavas de final — tornando-se um dos poucos jogadores da história a fazer isso numa Copa. Mas a Copa era de Maradona, e o feito passou quase despercebido pela imprensa global. A Espanha foi eliminada na fase seguinte pelo próprio Maradona e a Argentina.
A narração do radialista uruguaio Víctor Hugo Morales no Gol do Século é considerada a melhor narração da história do futebol. Enquanto Maradona avançava, Morales foi perdendo o fôlego e o controle: "¡Barrilete cósmico! ¿De qué planeta viniste para dejar en el camino a tanto inglés?" ("Papagaio cósmico! De que planeta você veio para deixar tantos ingleses no caminho?"). A narração foi eleita pela ESPN como a melhor de todos os tempos em 2007.
O legado de 1986: quando um homem foi maior que uma Copa
A Copa de 1986 entrou para a história como a Copa de Maradona — não apenas porque a Argentina venceu, mas porque Diego dominou o torneio de uma forma que nenhum jogador havia feito antes nem faria depois com tanta consistência. Em seis jogos, foi o melhor em todos. Marcou nos momentos mais importantes. Criou nas situações mais difíceis. Inventou nos instantes em que todos esperavam o comum.
Para o Brasil, 1986 deixou uma ferida. A geração de Sócrates e Zico era talvez a mais talentosa desde 1970 — e foi eliminada num tiro de loteria, na única vez que o Brasil havia chegado aos pênaltis em toda a história das Copas. Dois homens que representavam o melhor do futebol brasileiro cobram e perdem para o mesmo goleiro. A dor daqueles pênaltis acompanhou uma geração inteira.
Mas a Copa de 1986 também foi um presente para quem ama futebol. Dois times que jogavam para ganhar, não para não perder. Um jogador que nos deu os dois gols mais discutidos e mais admirados da história. E a prova definitiva de que o futebol, quando é jogado com genialidade e sem medo, é a mais bela forma de arte coletiva que a humanidade inventou.
- 1958: 🏆 Campeão — 1º título
- 1962: 🏆 Bicampeão — Copa de Garrincha
- 1966: Fase de grupos — eliminação vexatória
- 1970: 🏆 Tricampeão — A Copa Perfeita
- 1974: 4º lugar — crise de identidade
- 1978: 3º lugar — Zico e a geração emergente
- 1982: Quartas — o Brasil mais bonito que não foi campeão
- 1986: Quartas — pênaltis contra a França. Zico e Sócrates partem sem o título
📖 Próximo da série: Copa 1990 — O futebol que ninguém queria ver
Na Itália, o futebol fechado e violento dominou. A Argentina de Maradona chegou à final jogando feio. A Alemanha foi campeã com eficiência. E o Brasil perdeu para os argentinos num gol de Caniggia que ainda dói.
Ver toda a série →Fontes: Almanaque Completo da Copa do Mundo (Discovery Publicações, 2022) · Wikipedia · FIFA.com · CBF · Museu do Futebol · IFFHS · Placar · ESPN
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