Copa do Mundo 1998: Zidane, o mistério de Ronaldo e a final que parou o Brasil
Na França, Ronaldo entrou em campo sem condições, Zidane marcou duas vezes de cabeça e o Brasil perdeu por 3 a 0 a final mais estranha da história. O que aconteceu no quarto de hotel horas antes da partida nunca foi completamente explicado.
Era 12 de julho de 1998. Stade de France, São Denis. O Brasil tetracampeão e favorito enfrentava a França anfitriã na final mais esperada da história recente. Horas antes, Ronaldo havia sofrido convulsões no quarto de hotel. A primeira súmula entregue aos árbitros não tinha seu nome. Minutos depois, uma segunda súmula foi entregue — com ele incluído. Ronaldo entrou em campo. Andou pelo gramado como uma sombra de si mesmo. Zidane marcou dois gols idênticos de cabeça. O Brasil perdeu por 3 a 0. E o país inteiro ficou sem entender o que havia acontecido naquela noite.
A França anfitriã e o Brasil favorito
A décima sexta Copa do Mundo foi realizada na França entre 10 de junho e 12 de julho de 1998. Foi histórica antes mesmo de começar: pela primeira vez, 32 seleções participaram — um salto de 24 para 32 equipes que ampliou o futebol mundial.
O Brasil chegava como tetracampeão e favorito absoluto. A seleção de Zagallo tinha Ronaldo — o melhor jogador do mundo com apenas 21 anos —, Rivaldo, Roberto Carlos, Cafu, Bebeto e Denilson. A França, anfitriã, apostava no coletivo de Aimé Jacquet, comandado pelo genial Zinedine Zidane.
A Copa trouxe também a grande surpresa da Croácia — numa das primeiras participações do país independente — e a brilhante atuação do jovem Davor Šuker, que terminou como artilheiro. Mas tudo seria ofuscado pela noite de 12 de julho e pelo enigma que precedeu a partida mais importante do ano.
O Brasil de Zagallo — caminho até a final
A campanha brasileira até a final foi sólida. Ronaldo marcou quatro gols, Bebeto e Rivaldo foram decisivos, e o Brasil eliminou Chile, Dinamarca e Holanda (nos pênaltis) para chegar invicto à final. A semifinal contra a Holanda foi épica — empatada em 1 a 1 no tempo regulamentar, definida nos pênaltis com defesas do goleiro Taffarel que fizeram o Brasil inteiro explodir de alegria.
| Fase | Adversário | Placar | Artilheiros (BRA) |
|---|---|---|---|
| Grupo A | 🏴 Escócia | 2 × 1 | César Sampaio, Cafu |
| Grupo A | 🇲🇦 Marrocos | 3 × 0 | Ronaldo, Rivaldo, Bebeto |
| Grupo A | 🇳🇴 Noruega | 1 × 2 | Bebeto · time reserva |
| Oitavas | 🇨🇱 Chile | 4 × 1 | Ronaldo (2), Sávio, C. Sampaio |
| Quartas | 🇩🇰 Dinamarca | 3 × 2 | Bebeto, Rivaldo (2) |
| Semifinal | 🇳🇱 Holanda | 1 × 1 (pen.) | Ronaldo · Taffarel decisivo — 4×2 pênaltis |
| FINAL | 🇫🇷 França | 0 × 3 | — · Zidane (2), Petit · O Mistério |
O mistério de Ronaldo — a pergunta sem resposta definitiva
🔍 O que aconteceu no quarto 1065 do Hotel Château de Grande Romaine
Na tarde de 12 de julho de 1998 — horas antes da final mais importante das carreiras de todos os jogadores brasileiros —, Ronaldo Luís Nazário de Lima teve uma convulsão no quarto que dividia com Roberto Carlos. Levado às pressas para o hospital, foi examinado e liberado pelos médicos sem identificação de causa definitiva.
Horas depois, a súmula da escalação do Brasil foi entregue sem o nome de Ronaldo. O país inteiro ficou em choque. A imprensa entrou em colapso. Então, minutos antes do jogo, uma segunda escalação foi entregue — com Ronaldo incluído. Ele entrou em campo num estado claramente diferente do seu nível habitual.
Anos depois, Ronaldo confirmou a crise convulsiva — provavelmente relacionada ao estresse extremo. Mas as perguntas nunca foram respondidas: Por que jogou? Quem tomou a decisão? Houve pressão da Nike — que tinha contrato milionário com a CBF vinculado a Ronaldo jogar? A CBF nunca explicou oficialmente.
A primeira súmula entregue aos árbitros tinha Edmundo no lugar de Ronaldo. Minutos depois, uma segunda súmula foi entregue — com Ronaldo de volta. A troca de escalação às vésperas do apito inicial é um dos episódios mais insólitos da história das Copas do Mundo. Nenhum documento oficial explica quem tomou a decisão de colocar Ronaldo em campo.
A final: França 3 × 0 Brasil — Zidane eterno
O jogo começou e o Brasil simplesmente não estava lá. Ronaldo andava pelo campo sem seu ritmo habitual. Os outros jogadores pareciam igualmente abalados. E a França aproveitou com maestria.
Dois escanteios, duas cabeçadas de Zidane, dois gols no primeiro tempo. No segundo tempo, Desailly foi expulso aos 68 minutos, deixando a França com dez homens — e mesmo assim o Brasil não conseguiu reagir. Petit fechou em 3 a 0 nos acréscimos. A França era campeã. As cenas após o apito final tornaram-se icônicas: o rosto de Zidane projetado no Arco do Triunfo em Paris com a inscrição "Merci Zizou", milhões de pessoas nas ruas da capital.
Linha do tempo: a final do Stade de France
80.000 espectadores · Árbitro: Said Belqola (Marrocos)
Os protagonistas de 1998
Artilheiros da Copa 1998
-
1°
6 gols 🥇 Chuteira de OuroDavor Šuker🇭🇷 Croácia
-
2°
5 golsGabriel Batistuta🇦🇷 Argentina
-
3°
4 gols + Bola de OuroRonaldo🇧🇷 Brasil
-
3°
4 golsMarcelo Salas🇨🇱 Chile
-
5°
3 golsThierry Henry🇫🇷 França
O elenco brasileiro de 1998
| # | Jogador | Posição | Clube | Gols |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Taffarel | G | Parma | — |
| 2 | Cafu | D | Roma | 1 |
| 3 | Roberto Carlos | D | Real Madrid | — |
| 6 | Aldair | D | Roma | — |
| 4 | Júnior Baiano | D | Fenerbahçe | — |
| 5 | César Sampaio | M | Yokohama | 2 |
| 8 | Émerson | M | Bayer Leverkusen | — |
| 16 | Denilson | M | Betis | — |
| 10 | Rivaldo | M | Barcelona | 3 |
| 7 | Sávio | A | Real Madrid | 1 |
| 11 | Bebeto | A | Deportivo | 3 |
| 9 | Ronaldo ⭐ MVP | A | Inter de Milão | 4 |
| 18 | Edmundo | A | Fiorentina | — |
Curiosidades da Copa 1998
Apesar da atuação fantasma na final, Ronaldo foi eleito o melhor jogador do torneio — reconhecimento de sua campanha brilhante nos seis jogos anteriores. 4 gols, dribles impossíveis, participações decisivas. Nenhum outro jogador chegou perto de seu nível até aquela partida.
A maior ironia da final: Zidane — reconhecido mundialmente por suas qualidades com os pés, não pela cabeça — marcou os dois gols mais importantes de sua carreira com a cabeça, em cobranças de escanteio. O próprio Zizou reconhecia com humor que cabeceios não eram seu forte.
Independente desde 1991, a Croácia disputou poucas Copas antes de 1998. Eliminou a Alemanha nas quartas e chegou ao 3º lugar com Šuker, Boban e Prosinečki — uma geração irrepetível que até hoje é considerada a maior da história croata antes de 2022.
O zagueiro francês Lilian Thuram não era conhecido como goleador. Na semifinal contra a Croácia, com a França perdendo por 1 a 0, entrou em transe e marcou dois gols para virar o jogo. Foram os únicos dois gols que marcou em toda a carreira na Copa do Mundo. Timing perfeito.
Após a conquista francesa, Paris entrou em festa histórica. O rosto de Zidane foi projetado na fachada do Arco do Triunfo com a inscrição "Merci Zizou". Milhões de pessoas tomaram os Champs-Élysées. A imagem consolidou Zidane como o maior ícone do futebol francês de todos os tempos.
Horas antes da final, a CBF entregou a súmula sem Ronaldo — com Edmundo em seu lugar. Minutos depois, uma segunda súmula foi entregue com Ronaldo de volta. A troca de escalação tão próxima ao apito inicial nunca havia acontecido antes em uma final de Copa. Nenhum documento oficial explica o que aconteceu.
Num amistoso pré-Copa entre Brasil e França em junho de 1997, Roberto Carlos cobrou uma falta que curvou de forma aparentemente impossível — passando longe do gol e fechando bruscamente para entrar no ângulo. O goleiro Barthez ficou parado, sem acreditar. Cientistas estudaram a trajetória. O fenômeno foi explicado pela deformação da bola no momento do chute.
Aos 68 minutos, com a França vencendo por 2 a 0, Marcel Desailly levou o segundo amarelo e foi expulso. Brasil com 11 × 10 durante mais de 20 minutos — e não conseguiu nem descontar. Petit fechou em 3 a 0 nos acréscimos. Uma das finais mais desequilibradas da história, com um dos resultados mais injustos para a equipe maior.
Com 1 a 1 após a prorrogação na semifinal, Taffarel defendeu os pênaltis de Cocu e Ronald de Boer para levar o Brasil à final. Foi a grande atuação do goleiro naquela Copa — a defesa que fez o Brasil inteiro celebrar nas ruas. Menos de 5 dias depois, tudo se desfaria na noite mais estranha do futebol brasileiro.
O técnico que construiu a França campeã foi muito criticado pela imprensa francesa ao longo do torneio. Após o título, recebeu todas as homenagens possíveis. Sua resposta foi guardar os elogios e cumprir a promessa feita antes da Copa: renunciou imediatamente ao cargo. Uma despedida de classe absoluta.
O legado de 1998: duas histórias paralelas
A Copa de 1998 deixou duas histórias paralelas. A história da França — uma nação que descobriu no futebol um símbolo de sua diversidade, num time formado por filhos de imigrantes de toda a África que jogavam pela Bleu, Blanc, Rouge e faziam um país inteiro se reconhecer neles. Essa história é bela, e Zidane é seu protagonista eterno.
E há a história do Brasil — que chegou à final como favorito e saiu destroçado, sem explicação convincente. O mistério de Ronaldo permanece como uma das maiores interrogações do futebol mundial. Não pelo resultado em si, mas pelo que não foi dito, pelo que não foi explicado e pelas perguntas que nunca receberam resposta oficial.
Quatro anos depois, em 2002 no Japão, Ronaldo responderia a 1998 da única forma possível: marcando dois gols na final contra a Alemanha e conquistando o pentacampeonato. A redenção mais bonita do futebol brasileiro moderno.
- 1958 / 1962 / 1970: 🏆🏆🏆 Tri
- 1974: 4º · 1978: 3º · 1982 / 1986: Quartas
- 1990: Oitavas · 1994: 🏆 Tetra
- 1998: Vice — 3×0 para a França · O mistério de Ronaldo
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📖 Próximo da série: Copa 2002 — Ronaldo e o Penta
No Japão e Coreia, Ronaldo voltou do inferno físico para marcar dois gols na final contra a Alemanha. A redenção mais bonita do futebol brasileiro. E o Brasil venceu todos os 7 jogos da Copa.
Ver Copa 2002 →Fontes: Almanaque Completo da Copa do Mundo (Discovery Publicações, 2022) · Wikipedia · FIFA.com · CBF · Museu do Futebol · IFFHS · Placar · ESPN
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