Copa do Mundo 2002: o Penta — Ronaldo, a redenção e o Brasil no topo do mundo
No Japão e na Coreia do Sul, Ronaldo Fenômeno voltou de quatro anos de pesadelo físico para marcar dois gols na final, encerrar a maior Copa de surpresas da história e dar ao Brasil o pentacampeonato. Uma história de superação que o futebol não havia visto antes.
Eram 67 minutos do segundo tempo da final. Brasil 1 × 0 Alemanha. Ronaldo recebeu na área, dominou e bateu cruzado — o segundo gol do jogo, o oitavo na Copa, o símbolo de uma redenção completa. Quatro anos antes, na véspera de outra final, ele havia desmaiado num quarto de hotel em Paris com convulsões. Entrou em campo em estado alterado e o Brasil perdeu por 3 a 0 para a França. Muitos acharam que nunca mais seria o mesmo. Nos quatro anos seguintes, sofreu três lesões gravíssimas no joelho — uma delas o deixou dois anos afastado. Em 2002, no Japão, com 25 anos e um sorriso com o dente partido que virou símbolo de uma geração, Ronaldo Fenômeno respondeu a tudo que o mundo duvidava. Com dois gols. Na final. Contra a Alemanha.
A Copa das surpresas: quando os favoritos caíram
A Copa de 2002 foi a mais imprevisível da história. O formato com 32 seleções ampliou o número de equipes competitivas, e o fuso horário asiático desorientou as grandes potências europeias. O resultado foi uma fase de grupos repleta de resultados que ninguém esperava.
A França, campeã em 1998 e favorita absoluta com Zidane, Henry e Vieira, foi eliminada na fase de grupos sem marcar um único gol — perdeu para o Senegal, empatou com o Uruguai e perdeu para a Dinamarca. A Argentina, com Batistuta, Veron e Ortega, também caiu na fase de grupos, num grupo com Suécia e Inglaterra. Portugal, com Figo, Rui Costa e Pauleta, foi eliminado após perder para os EUA. A Itália foi eliminada de forma controversa pela Coreia do Sul nas oitavas, em dois gols anulados e um gol sul-coreano em condições duvidosas.
No caos, o Brasil navegou com precisão e eficiência. Felipão havia montado um time sem estrelas excessivas — mas com uma dupla de ataque que o mundo não conseguia parar: Ronaldo e Ronaldinho.
- 🇫🇷 França — campeã 1998, eliminada na fase de grupos com zero gols marcados
- 🇦🇷 Argentina — vice 1990, eliminada na fase de grupos
- 🇵🇹 Portugal — finalista Euro 2000, eliminado na fase de grupos
- 🇮🇹 Itália — eliminada nas oitavas em circunstâncias polêmicas pela Coreia do Sul
Ronaldo Fenômeno: quatro anos de inferno, um mês de glória
⚡ A história da maior redenção do futebol
Em 11 de julho de 1998, na véspera da final da Copa do Mundo em Paris, Ronaldo sofreu convulsões num quarto de hotel e foi levado ao hospital. Mesmo assim, seu nome constava na súmula — e ele entrou em campo. O Brasil perdeu por 3 a 0 para a França. O que aconteceu naquele quarto nunca foi totalmente esclarecido. A Nike, patrocinadora da seleção, foi acusada de pressionar pela escalação. Ronaldo nunca deu uma versão definitiva.
Nos quatro anos seguintes, o calvário continuou. Em novembro de 1999, sofreu uma luxação no joelho direito durante um jogo pelo Inter de Milão. Em abril de 2000, nova lesão — desta vez a ruptura do tendão patelar. Ficou dois anos afastado. Em fevereiro de 2002, quatro meses antes da Copa, sofreu nova lesão no mesmo joelho. Os médicos duvidavam que chegaria à Copa em condições.
Chegou. E foi o melhor da Copa. 8 gols em 7 jogos, incluindo dois na final. O sorriso com o dente partido — fruto de um choque num treino — e o corte de cabelo bizarro que entrou para a história. Ronaldo em 2002 não era apenas um jogador em forma. Era um homem que havia voltado do limite para provar que era o melhor do mundo.
Os protagonistas do pentacampeonato
A campanha perfeita: 7 jogos, 7 vitórias
| Fase | Adversário | Placar | Artilheiros (BRA) | Local |
|---|---|---|---|---|
| Grupo C | 🇹🇷 Turquia | 2 × 1 | Ronaldo (2) | Ulsan |
| Grupo C | 🇨🇳 China | 4 × 0 | Ronaldo (2), Rivaldo, Juninho | Seogwipo |
| Grupo C | 🇨🇷 Costa Rica | 5 × 2 | Ronaldo (2), Edmílson, Rivaldo, Júnior | Suwon |
| Oitavas | 🇧🇪 Bélgica | 2 × 0 | Rivaldo, Ronaldo | Kobe |
| Quartas | 🏴 Inglaterra | 2 × 1 | Rivaldo, Ronaldinho (falta) | Shizuoka |
| Semifinal | 🇹🇷 Turquia | 1 × 0 | Ronaldo | Saitama |
| FINAL 🏆 | 🇩🇪 Alemanha | 2 × 0 | Ronaldo (2) | Yokohama |
- 7 jogos · 7 vitórias · 0 empates · 0 derrotas
- 18 gols marcados · apenas 4 sofridos
- Ronaldo marcou em 6 dos 7 jogos
- Único time a vencer todas as partidas da Copa de 2002
- Cafu: 1º jogador a jogar três finais consecutivas de Copa
A falta de Ronaldinho — o gol mais inesperado da Copa
As quartas de final contra a Inglaterra foram o jogo mais comentado do Brasil antes da final. Num duelo tenso no estádio de Shizuoka, Rivaldo empatou em 1 a 1 ainda no primeiro tempo após o gol de Owen. No início do segundo tempo, Ronaldinho recebeu falta na intermediária — a cerca de 40 metros do gol inglês.
O goleiro David Seaman posicionou sua barreira e avançou alguns passos da linha. Ronaldinho, com sua leveza característica, bateu levantado — uma bola que subiu, subiu e começou a cair bem antes do esperado por Seaman, que recuou desesperadamente mas não chegou. A bola entrou no ângulo superior direito. 2 a 1 Brasil. Seaman ficou parado, olhando para o céu.
Ronaldinho foi expulso pouco depois por entrada em Mills. O Brasil jogou com dez homens durante quase 30 minutos e segurou o resultado. A Inglaterra não marcou. Nas semifinais, a Turquia também não.
Ronaldinho sempre disse que tentou dar uma assistência para Ronaldo — que a bola era um cruzamento que o goleiro deixou entrar. Outros disseram que foi deliberado. A FIFA classificou oficialmente como gol. O próprio Seaman disse que foi pego de surpresa por uma bola que ele nunca havia visto chutada assim. Independentemente da intenção, entrou no canto — e ficou como um dos gols mais marcantes da história das Copas.
A Final: Brasil 2 × 0 Alemanha — Ronaldo escreve a história
A final no Estádio Internacional de Yokohama, em 30 de junho de 2002, reuniu 69.029 pessoas. Do outro lado do Brasil estava a Alemanha — que havia chegado à final de forma quase tão improvável quanto seus adversários, com o goleiro Oliver Kahn como figura dominante. Kahn havia sido tão decisivo que receberia a Bola de Ouro ao final — o único goleiro da história a receber o prêmio de melhor jogador de uma Copa.
O primeiro tempo foi controlado, sem gols. No segundo, o Brasil resolveu em duas jogadas de Ronaldo — e em dois erros raros de Kahn, que havia sido quase inexpugnável durante toda a Copa.
Os gols da final
69.029 espectadores · Árbitro: Pierluigi Collina (Itália)
Artilheiros da Copa 2002
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1°
8 gols 🥇 Chuteira de OuroRonaldo🇧🇷 Brasil
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2°
5 golsMiroslav Klose🇩🇪 Alemanha
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3°
5 golsRivaldo🇧🇷 Brasil
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3°
2 gols + assistências decisivasRonaldinho🇧🇷 Brasil
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5°
4 golsJon Dahl Tomasson🇩🇰 Dinamarca
O elenco pentacampeão de 2002
| # | Jogador | Posição | Clube | Gols |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Marcos | G | Palmeiras | — |
| 12 | Dida | G | Corinthians | — |
| 2 | Cafu (C) | D | Roma | — |
| 3 | Roberto Carlos | D | Real Madrid | — |
| 4 | Roque Júnior | D | Milan | — |
| 6 | Lúcio | D | Bayer Leverkusen | 1 |
| 5 | Emerson | M | Roma | — (lesionado) |
| 8 | Gilberto Silva | M | Atlético-MG | — |
| 15 | Kléberson | M | Athletico-PR | — |
| 16 | Juninho Paulista | M | Atlético de Madrid | 1 |
| 7 | Edmílson | M | Lyon | 1 |
| 10 | Ronaldinho | A | PSG | 2 |
| 11 | Rivaldo | A | Barcelona | 5 |
| 9 | Ronaldo ⭐ Artilheiro | A | Real Madrid | 8 |
| 20 | Denílson | A | Betis | — |
| 19 | Edilson | A | Corinthians | — |
Curiosidades da Copa 2002
Ronaldo apareceu na Copa de 2002 com um corte de cabelo bizarro: raspadão em volta e uma franja triangular na frente — o "bico". A imprensa ridicularizou. Os torcedores ficaram confusos. A história que vazou: Ronaldo cortou primeiro o cabelo do filho Ronaldo Jr. com o bico, e o menino ficou com vergonha na escola. Para solidarizar, o pai cortou igual. Outra versão diz que Ronaldo queria tirar o foco dos jornalistas de seu desempenho físico, ainda questionado. O "bico" entrou para sempre na história do futebol — e crianças de todo o mundo imitaram o estilo nas escolinhas.
A Coreia do Sul, anfitriã, fez a campanha mais surpreendente da história das Copas. Eliminou Portugal nas oitavas (1 a 0), a Espanha nas quartas (pênaltis), a Itália nas oitavas (gol nos acréscimos), e só caiu para a Alemanha na semifinal. Chegou ao 4º lugar — ainda o melhor resultado de uma seleção asiática na história. Cada jogo foi acompanhado por multidões de torcedores de vermelho que lotaram as ruas de Seul. O país parou completamente durante a Copa.
Oliver Kahn foi tão dominante na Copa que recebeu a Bola de Ouro de melhor jogador do torneio — o único goleiro da história a conquistar o prêmio. Havia defendido praticamente tudo até a final. Nos dois gols de Ronaldo, porém, falhou: no primeiro, soltou a bola num chute que deveria ter segurado; no segundo, Ronaldo foi mais rápido e preciso. Kahn chorou no gramado após a derrota — um dos momentos mais humanos da história do futebol.
Entre 1998 e 2002, Ronaldo sofreu: convulsões misteriosas na véspera da final de 1998 (Paris); luxação no joelho direito em novembro de 1999; ruptura do tendão patelar em abril de 2000 (ficou dois anos afastado); e nova lesão no mesmo joelho em fevereiro de 2002, quatro meses antes da Copa. Médicos internacionais chegaram a afirmar publicamente que ele nunca mais seria o mesmo. A Copa de 2002 foi a resposta definitiva a esses médicos.
Pierluigi Collina, árbitro italiano conhecido pela cabeça raspada e olhos esbugalhados que intimidavam qualquer jogador, apitou a final de 2002 — considerada por muitos a melhor atuação arbitral da história das Copas. Collina conduziu o jogo com autoridade e precisão, sem polêmicas. Foi sua última grande final internacional antes da aposentadoria. A FIFA o elegeu o melhor árbitro do mundo por seis anos consecutivos.
Japão e Coreia do Sul co-sediaram pela primeira vez na história duas nações dividindo uma Copa. O fuso horário asiático significava que os jogos eram transmitidos de madrugada na Europa — o que alguns especialistas apontam como fator na queda dos grandes favoritos europeus. Jogadores relataram dificuldade de adaptação. A França chegou dormindo nas primeiras partidas e foi eliminada com zero gols.
No jogo Brasil × Turquia da fase de grupos, o turco Hakan Ünsal chutou a bola na canela de Rivaldo após o apito do árbitro. Rivaldo dramatizou, segurou o rosto e rolou no chão como se tivesse tomado uma pancada na cabeça. Ünsal foi expulso. A FIFA, após análise de vídeo, multou Rivaldo em 5.000 francos suíços — a punição mais inexpressiva para uma simulação tão clara na história das Copas. O episódio virou referência de comportamento antidesportivo.
Cafu disputou as finais de 1994 (campeão), 1998 (vice) e 2002 (campeão) — o único jogador da história a jogar três finais consecutivas de Copa do Mundo. Em 1994 ainda era reserva, entrando no segundo tempo. Em 1998, saiu lesionado. Em 2002, foi capitão e levantou a taça. Ao erguer o troféu no Japão, cobriu o rosto com as mãos e chorou — ele que havia prometido ao pai, operário, que um dia seria campeão do mundo.
Gilberto Silva era jogador do Atlético Mineiro quando foi convocado para substituir o capitão Emerson, lesionado. Fez uma Copa tão impressionante que Arsène Wenger, técnico do Arsenal, assistiu seus jogos e o contratou imediatamente após o torneio. Gilberto foi da Cidade do Atletismo para o Emirates Stadium em questão de semanas — e se tornou um dos melhores volantes da Premier League, ganhando o título inglês invicto em 2003/04 com o time dos "Invencíveis".
Com o pentacampeonato, o Brasil tornou-se o único país da história com cinco títulos mundiais — e o único a ter uma estrela extra bordada na camisa acima das outras quatro. A Alemanha e a Itália tinham quatro cada. Nenhuma outra seleção chegou perto. O quinto título garantiu ao Brasil um status único no futebol mundial que persiste até hoje — e que a Copa de 2026 pode, ou não, ver alguém igualar.
O legado de 2002: o penta e o fim de uma era
A Copa de 2002 foi, ao mesmo tempo, o ápice e o crepúsculo de uma geração. Ronaldo, Ronaldinho e Rivaldo em 2002 eram jovens — 25, 22 e 30 anos respectivamente. Mas a forma como chegaram ao Japão, com lesões, pressões e dúvidas, já mostrava que aquela geração havia dado tudo que tinha.
O Brasil não voltaria a uma final de Copa do Mundo. Em 2006, foi eliminado pela França nas quartas. Em 2010, pela Holanda nas quartas. Em 2014, levou 7 a 1 da Alemanha — a maior humilhação da história do futebol brasileiro. Em 2018, eliminado pela Bélgica. Em 2022, pelos croatas nos pênaltis.
Olhando para trás, 2002 parece cada vez mais o fim de uma época dourada. Uma Copa em que o Brasil venceu todos os sete jogos, marcou 18 gols e foi liderado por um homem que havia voltado do abismo para confirmar que era o melhor jogador do mundo. Ronaldo Fenômeno em 2002 não foi apenas um campeão. Foi uma lição de que o talento, quando sustentado pela determinação, vence qualquer obstáculo.
- 1958: 🏆 Campeão — 1º título
- 1962: 🏆 Bicampeão — Copa de Garrincha
- 1966: Fase de grupos
- 1970: 🏆 Tricampeão — A Copa Perfeita
- 1974: 4º lugar
- 1978: 3º lugar
- 1982: Quartas — Brasil mais bonito sem título
- 1986: Quartas — pênaltis vs França
- 1990: Oitavas — eliminado pela Argentina
- 1994: 🏆 Tetracampeão — Romário e Bebeto
- 1998: Vice — mistério de Ronaldo em Paris
- 2002: 🏆🏆🏆🏆🏆 Pentacampeão — Ronaldo, a redenção
📖 Próximo da série: Copa 2006 — Zidane e a cabeçada
Na Alemanha, Zidane fez sua despedida dos gramados com o gol mais bonito da final — e o lance mais polêmico: uma cabeçada em Materazzi que o tirou da Copa. A Itália foi campeã nos pênaltis. O Brasil caiu nas quartas para a França.
Ver toda a série →Fontes: Almanaque Completo da Copa do Mundo (Discovery Publicações, 2022) · Wikipedia · FIFA.com · CBF · Museu do Futebol · IFFHS · Placar · ESPN
