Copa do Mundo 2006: a cabeçada de Zidane — e o Brasil que parou nas quartas de novo
Na Alemanha do Sommermärchen, Zidane encantou o mundo — e no último jogo da carreira deu uma cabeçada em Materazzi e foi expulso. A Itália venceu nos pênaltis. Cannavaro ganhou a Bola de Ouro. Ronaldo quebrou o recorde de gols em Copas. E o Brasil perdeu para a França nas quartas, pelo mesmo Zidane de 1998.
Era o minuto 110 da prorrogação da final entre Itália e França, no Estádio Olímpico de Berlim. O placar estava em 1 a 1. Zinedine Zidane — o melhor jogador do torneio, o maior camisa 10 de sua geração, em seu último jogo como profissional — virou as costas, andou alguns passos e então se voltou bruscamente. Baixou a cabeça e acertou o peito de Marco Materazzi, que caiu dramaticamente. O árbitro Horácio Elizondo não viu — mas o quarto árbitro avisou. Cartão vermelho. Zidane saiu de campo de cabeça baixa, passou ao lado da taça Jules Rimet sem olhar para ela e nunca mais jogou futebol. A imagem mais contraditória e inesquecível da história das Copas: o melhor foi expulso no último ato da carreira. E ainda foi eleito o MVP do torneio.
O Sommermärchen — o conto de fadas alemão
A Copa de 2006 recebeu um apelido imediato dos próprios alemães: Sommermärchen — "conto de fadas de verão". O país que o mundo associava à frieza e à eficiência mostrou uma face diferente: estádios modernos, ruas decoradas, torcedores de todo o mundo recebidos com calor genuíno, e uma seleção anfitriã que encantou com futebol ofensivo e alegre liderado por Klose, Podolski e Ballack.
Em termos de qualidade técnica, a Copa de 2006 foi uma das mais ricas desde 1982. Num único torneio: Zidane na última grande Copa, Ronaldo quebrando o recorde histórico de gols, Cannavaro como zagueiro perfeito, Kaká emergindo como o melhor do mundo, o jovem Cristiano Ronaldo com 21 anos, e um duelo final entre duas das maiores potências do futebol — tudo isso embalado pela atmosfera única de uma Alemanha que se descobriu capaz de celebrar.
Parreira convocou Ronaldo, Ronaldinho (Bola de Ouro de 2005), Kaká, Adriano, Roberto Carlos e Cafu — as maiores estrelas do planeta. No papel, era o melhor elenco do mundo. Em campo, nunca funcionou como equipe. Ronaldinho desapareceu. Adriano chegou sem condicionamento físico. Ronaldo estava acima do peso ideal. Apenas Kaká jogou no seu nível. O Brasil caiu nas quartas para a França, novamente com Zidane, pelo placar de 0 a 1.
A campanha do Brasil jogo a jogo
| Fase | Adversário | Placar | Artilheiros / Destaques |
|---|---|---|---|
| Grupo F | 🇭🇷 Croácia | 1 × 0 | Kaká · Estreia difícil, mas eficiente |
| Grupo F | 🇦🇺 Austrália | 2 × 0 | Adriano, Fred · Domínio tranquilo |
| Grupo F | 🇯🇵 Japão | 4 × 1 | Ronaldo (2), Juninho, Gilberto · 1° do grupo |
| Oitavas | 🇬🇭 Gana | 3 × 0 | Ronaldo (rec. histórico!), Adriano, Zé Roberto |
| Quartas | 🇫🇷 França | 0 × 1 | — · Gol de falta Zidane 57' · O Brasil parou de novo nas quartas |
- Minuto 57' — Zidane cobra falta de longe com efeito preciso
- Dida não alcança. França 1×0 Brasil
- Brasil chegou a ter mais posse e finalizações — mas Barthez e a defesa francesa seguraram
- Terceiro torneio seguido com o Brasil eliminado nas quartas de final (2002 chegou à final)
- Ronaldinho, Bola de Ouro de 2005, não fez uma jogada de destaque na Copa inteira
Berlim, 9 de julho de 2006 — a cabeçada que parou o mundo
🤯 Zinedine Zidane × Marco Materazzi — O Minuto 110
Era a prorrogação da final entre Itália e França. Placar de 1 a 1. Zidane havia marcado de Panenka no 7° minuto — uma cavadinha delicada sobre Buffon numa cobrança de pênalti, um dos gols mais ousados de uma final. Materazzi havia empatado de cabeça no 19°. Desde então, os dois vinham trocando palavras em campo.
Aos 110 minutos, Zidane virou as costas. Andou alguns passos. Materazzi disse algo. Zidane se voltou e acertou uma cabeçada no peito do italiano. Materazzi caiu. O árbitro Elizondo não viu — mas o quarto árbitro, Cantalejo, o informou. Cartão vermelho. Último jogo da carreira. Última imagem.
Materazzi confirmou anos depois que insultou a irmã de Zidane. Zidane confirmou a versão. Disse que "não se arrependia" — porque se arrependesse, significaria que Materazzi tinha razão. Sem Zidane, a França perdeu nos pênaltis. A Itália foi tetracampeã. E aquela cabeçada virou o gesto mais analisado, discutido e reproduzido na história do futebol mundial.
A Final minuto a minuto: Itália × França em Berlim
Prorrogação: 1×1 · Pênaltis: Itália 5×3 França — Trezeguet bate no travessão
69.000 espectadores · Árbitro: Horácio Elizondo (Argentina)
Os protagonistas de 2006
Artilheiros da Copa 2006
-
1°
5 gols 🥇 Chuteira de OuroMiroslav Klose🇩🇪 Alemanha
-
2°
3 gols + Bola de Ouro (expulso na final)Zinedine Zidane🇫🇷 França
-
2°
3 gols — recorde histórico de 15 em CopasRonaldo🇧🇷 Brasil
-
2°
3 gols em 7 jogosThierry Henry🇫🇷 França
-
3°
3 gols em 5 jogosHernán Crespo🇦🇷 Argentina
O elenco brasileiro de 2006
| # | Jogador | Posição | Clube | Gols |
|---|---|---|---|---|
| 12 | Dida | G | AC Milan | — |
| 1 | Helton | G | Porto | — |
| 2 | Cafu (C) | D | AC Milan | — |
| 3 | Roberto Carlos | D | Real Madrid | — |
| 4 | Lúcio | D | Bayern Munique | — |
| 5 | Juan | D | Bayer Leverkusen | — |
| 14 | Cicinho | D | Real Madrid | — |
| 6 | Gilberto Silva | M | Arsenal | 1 |
| 16 | Zé Roberto | M | Bayern Munique | 1 |
| 5 | Juninho Pernambucano | M | Lyon | 1 |
| 8 | Kaká ⭐ | M | AC Milan | 1 |
| 10 | Ronaldinho Gaúcho | M | Barcelona | — |
| 9 | Ronaldo | A | Real Madrid | 3 |
| 11 | Adriano | A | Inter de Milão | 2 |
| 7 | Robinho | A | Real Madrid | — |
| 21 | Fred | A | Lyon | 1 |
Curiosidades da Copa 2006
É o único caso na história das Copas em que o melhor jogador do torneio foi expulso na partida decisiva. A votação dos jornalistas já havia encerrado antes do incidente com Materazzi — e Zidane foi escolhido por seu desempenho dominante ao longo das seis semanas anteriores, incluindo gols decisivos contra Brasil, Portugal e a Panenka da final. Um paradoxo histórico que nenhuma Copa repetiu.
Fabio Cannavaro venceu o prêmio de Melhor Jogador do Mundo da FIFA em 2006 — o último defensor na história a conquistar o troféu. Desde então, a premiação foi dominada por Messi e Cristiano Ronaldo por mais de uma década. Cannavaro capitaneou a Itália ao título, concedendo zero gols em campo aberto ao longo de todo o torneio. Uma façanha defensiva histórica.
O gol de Ronaldo contra Gana nas oitavas foi o de número 15 em Copas do Mundo — superando o alemão Gerd Müller, que havia marcado 14 em três edições (1970 e 1974). O recorde de Ronaldo durou até 2014, quando Miroslav Klose — o artilheiro desta Copa de 2006 — chegou a 16. Curiosamente, Klose também estava em campo quando Ronaldo quebrou o recorde de Müller.
Enquanto a Copa de 2006 acontecia, o futebol italiano vivia o maior escândalo de manipulação de resultados moderno — o Calciopoli. Juventus, Milan, Fiorentina e Lazio eram investigados. A Juventus seria rebaixada à Série B. Os jogadores da Squadra Azzurra jogaram cada partida com a imprensa do próprio país cobrindo o escândalo. Vencer a Copa em meio a esse caos foi considerado por muitos um milagre de coesão de grupo.
A Copa de 2006 foi o momento em que a Alemanha se reconectou com a alegria coletiva. As ruas de todas as cidades-sede foram tomadas por torcedores de todo o mundo num clima que os alemães nunca haviam experimentado. A seleção anfitriã chegou ao terceiro lugar com futebol aberto e atraente, liderada por Klose e Podolski. O apelido "Sommermärchen" ficou — e é usado até hoje quando os alemães querem descrever aquele verão especial.
Após a expulsão de Wayne Rooney nas quartas entre Portugal e Inglaterra, câmeras flagraram Cristiano Ronaldo piscando para o banco português com um sorriso. Os ingleses ficaram furiosos e o chamaram de traidor — esquecendo que CR7 simplesmente defendeu seu time. Portugal passou. A amizade com Rooney (ambos no Manchester United) sobreviveu à polêmica. CR7 foi vaiado por meses nos estádios ingleses.
Anos após a Copa, Marco Materazzi admitiu que provocou Zidane fazendo um comentário sobre sua irmã — mas recusou-se a repetir as palavras exatas. Zidane confirmou a versão. Disse que não se arrependia da reação porque, se se arrependesse, significaria que Materazzi tinha razão. O debate sobre quem "ganhou" aquele confronto — e se Zidane deveria ter controlado — nunca terminou completamente.
Dono da Bola de Ouro de 2005 e apontado como o favorito a ser o melhor da Copa, Ronaldinho passou pelo torneio praticamente invisível. Nenhum gol, nenhuma jogada de alto nível, nenhum momento que justificasse a expectativa enorme que carregava. Parreira o escalou mas não conseguiu aproveitá-lo. Anos depois, Ronaldinho admitiu que havia chegado cansado de uma temporada pesadíssima pelo Barcelona.
Gianluigi Buffon atravessou toda a Copa sem ser batido em nenhuma jogada de campo aberto. Os dois gols que a Itália sofreu foram: um pênalti convertido por Zidane na final e um gol contra de Zaccardo na fase de grupos. Nenhum adversário bateu Buffon em situação de jogo normal ao longo de todo o torneio. Uma das maiores exibições coletivas defensivas da história das Copas.
A Copa de 2006 foi a última de uma geração inteira de lendas. Luis Figo (Portugal), Roberto Carlos e Cafu (Brasil) e Zinedine Zidane (França) disputaram juntos sua última Copa do Mundo. Figo saiu de campo no final da derrota para a França sem conseguir o título que lhe faltou. Roberto Carlos e Cafu caíram nas quartas. E Zidane — bem, Zidane saiu do jeito que ninguém esperava. Mas que ninguém nunca esquecerá.
O legado de 2006: um adeus e uma promessa
A Copa de 2006 é a Copa de Zidane — não da Itália campeã, não de Klose artilheiro, não do Sommermärchen alemão. É de Zidane. Da Panenka sobre Buffon e da cabeçada em Materazzi. Do melhor jogador saindo pelo pior caminho no último jogo da vida. Nenhuma Copa antes ou depois produziu um personagem tão contraditório e inesquecível numa única partida.
Para o Brasil, 2006 foi o terceiro torneio seguido caindo nas quartas de final — depois de 2002 na final e 1998 na decisão, a seleção recuou. A geração de Ronaldo, Ronaldinho e Kaká nunca jogou uma final juntos. Era talento demais para uma época só — e ao mesmo tempo, de alguma forma, insuficiente. A seleção seguinte, de Dunga em 2010, tentaria por outro caminho. Com resultados igualmente frustrantes.
A Copa de 2006 deixou ainda uma certeza clara: Kaká seria o próximo dono do futebol mundial — o que se confirmou com a Bola de Ouro de 2007. E anunciou que um jovem português de 21 anos chamado Cristiano Ronaldo estava chegando para mudar tudo. A próxima Copa, em 2010 na África do Sul, seria a Copa de uma nova ordem.
- 1994: 🏆 Tetra · 1998: Vice · 2002: 🏆 Penta
- 2006: Quartas — 0×1 para a França (Zidane de falta)
- 2010: Quartas — eliminado pela Holanda · 2014: 4° — 7×1
- 2018: Quartas — eliminado pela Bélgica · 2022: Quartas — Croácia nos pênaltis
- O Brasil não chega a uma semifinal de Copa desde 2002 — mais de 20 anos.
📖 Próximo da série: Copa 2010 — Espanha, Iniesta e o Tiki-Taka
Na África do Sul, a Espanha de Xavi, Iniesta e Villa apresentou ao mundo o futebol de posse mais dominante da história. O Brasil caiu nas quartas para a Holanda. Maradona levou a Argentina ao mesmo destino — eliminada pela Alemanha por 4 a 0.
Ver toda a série →Fontes: FIFA.com · CBF · ESPN · UOL Esporte · France Football · L'Équipe · Wikipedia · The Guardian · Transfermarkt
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