Série Copa do Mundo
Chile, 1962
O Mundial de Garrincha

Com Pelé fora por lesão, Garrincha assumiu o comando e carregou o Brasil nas costas. Foi a Copa de uma estrela — e de um segundo título dourado.
Chile — 1962
Campeão: Brasil
16 Seleções, 4 Grupos
32 Jogos, 89 Gols, 4 gols Garrincha (artilheiro BR), 3 × 1 Final vs Tchecoslováquia, 2° Título do Brasil
O Palco — Chile 1962
A sétima edição da Copa do Mundo aconteceu no Chile, entre 30 de maio e 17 de junho de 1962. O país andino havia disputado — e perdido — a candidatura para a Copa de 1960 com a Argentina, mas ganhou o direito de sediar a edição de 1962. Para piorar, um terremoto devastador em 1960 sacudiu o país, e muitos duvidaram da capacidade chilena de organizar o torneio. O presidente da federação, Carlos Dittborn, respondeu com uma frase histórica: “Como não temos nada, faremos tudo.”

O formato seguiu o padrão de 1958: 16 seleções divididas em quatro grupos, com os dois primeiros de cada chave avançando às quartas de final. O Brasil chegava como bicampeão invicto da Suécia e, portanto, como o maior favorito do torneio.
“Como não temos nada, faremos tudo.” — Carlos Dittborn, presidente da Federação Chilena, ao defender a candidatura do país ao torneio mesmo após o terremoto de 1960.
A Copa foi marcada por um clima tenso. O famoso “jogo da batalha de Santiago”, entre Chile e Itália, entrou para a história como um dos mais violentos da história das Copas, com dois italianos expulsos já nos primeiros minutos. Mas o que o torcedor brasileiro guardou na memória foi a exibição soberba de um homem de pernas tortas que iria se tornar lenda para sempre.
A Lesão de Pelé e a Ascensão de Garrincha
Pelé chegou ao Chile como o maior craque do mundo. Havia dominado a Copa de 1958 com apenas 17 anos e carregava o peso de todas as expectativas. Mas, na segunda partida da fase de grupos, contra a Tchecoslováquia, uma distensão muscular tirou o Rei do torneio — e abriu espaço para uma das histórias mais belas do futebol mundial.

Manuel Francisco dos Santos, o Garrincha, estava pronto. O Anjo de Pernas Tortas, nascido em Pau Grande (RJ), que driblava com uma torção de quadril impossível e que já havia encantado a Suécia em 1958, estava à beira de sua Copa mais gloriosa. A partir das quartas de final, ele tomou as rédeas do torneio com uma intensidade que o mundo jamais esqueceria.
Com Pelé ausente, o técnico Aymoré Moreira adaptou o time. Amarildo entrou em seu lugar e, curiosamente, fez uma Copa fantástica — inclusive marcando gols decisivos. Mas era Garrincha quem ditava o ritmo da seleção verde e amarela.
Garrincha foi o único jogador da história a vencer todas as partidas que disputou em Copas do Mundo — sem nenhuma derrota, em duas edições consecutivas (1958 e 1962). Uma marca que nenhum outro jogador igualou.

Craques do Brasil 1962
7
Garrincha
Ponta-Direita
O herói da Copa. Com Pelé fora, assumiu o protagonismo e foi eleito o melhor jogador do torneio. Seus dribles desconcertantes destruíram qualquer defesa que encontrou pelo caminho.
4 gols
MVP da Copa

10
Pelé
Centro-Avante
O Rei entrou na Copa como favorito, mas uma lesão muscular contra a Tchecoslováquia o tirou da competição. Mesmo assim, deixou sua marca nos dois primeiros jogos.
2 gols
Lesionado

9
Amarildo
Centro-Avante
Substituto de Pelé, foi uma das surpresas positivas da Copa. Marcou dois gols decisivos contra a Espanha e celebrou o título como se fosse um veterano de décadas.
3 gols
Substituto heroico
13
Vavá
Centro-Avante
O centroavante veterano de 1958 repetiu a dose em 1962, sendo bicampeão mundial. Marcou gols importantes e manteve a estabilidade do ataque mesmo com as reviravoltas da Copa.
4 gols
Bicampeão
3
Nilton Santos
Lateral-Esquerdo
A Enciclopédia do Futebol. Considerado um dos maiores laterais de todos os tempos, foi pilar da defesa brasileira em 1958 e 1962, tornando-se bicampeão mundial.
Bicampeão
Lenda
1
Gilmar
Goleiro
O goleiro titular bicampeão. Seguro, posicionado e comandante da defesa, Gilmar foi fundamental para que o Brasil não sofresse muitos gols ao longo do torneio.
Bicampeão
5 jogos
8
Didi
Meia
O maestro do meio-campo brasileiro. Com sua folha morta e visão de jogo, Didi ditou o ritmo das jogadas e foi peça-chave na conexão entre defesa e ataque em todo o torneio.
2 gols
Bicampeão
6
Zito
Meia Defensivo
O volante de marcação que equilibrava a equipe. Com Didi criando à frente, Zito era o responsável pela proteção da defesa e pela recuperação de bolas no meio-campo.
1 gol
Bicampeão
Fase de Grupos — Grupo 3
Brasil
2 – 0
México
Fase de Grupos
30/05 · Viña del Mar · Gols: Zagallo, Pelé
Brasil
0 – 0
Tchecoslováquia
Fase de Grupos
02/06 · Viña del Mar · Pelé se lesiona neste jogo
Brasil
2 – 1
Espanha
Fase de Grupos
06/06 · Viña del Mar · Gols: Amarildo (2)
Mata-Mata — A Era Garrincha
Brasil
3 – 1
Inglaterra
Quartas de Final
10/06 · Viña del Mar · Garrincha (2), Vavá
Brasil
4 – 2
Chile
Semifinal
13/06 · Santiago · Garrincha (2), Vavá (2)
Brasil
3 – 1
Tchecoslováquia
🏆 Final
17/06 · Santiago · Amarildo, Zito, Vavá
A Final — Brasil 3 × 1 Tchecoslováquia
A grande decisão aconteceu em 17 de junho de 1962, no Estádio Nacional de Santiago, diante de quase 70 mil pessoas. Os tchecos, que tinham surpreendido a todos ao derrotar a poderosa Hungria e a Iugoslávia para chegar à final, saíram na frente: aos 15 minutos, Masopust marcou para a Tchecoslováquia.
O placar adverso durou apenas dois minutos. Amarildo, o homem que substituíra Pelé, apareceu pelo lado esquerdo em posição quase impossível e chutou no ângulo para empatar — um dos gols mais bonitos da história das finais de Copa. Na segunda etapa, Zito e Vavá fecharam o placar em 3 a 1.
O Brasil era bicampeão mundial. Garrincha, que não tinha disputado a final por estar suspenso após ser expulso na semifinal contra o Chile, viu seus companheiros erguerem a taça Jules Rimet. Mesmo ausente da grande partida, ele foi eleito o melhor jogador do torneio — um reconhecimento unânime de que a Copa de 1962 havia sido sua Copa.

Amarildo marcou um dos gols mais extraordinários de uma final de Copa — chutando de um ângulo quase impossível pelo lado esquerdo, ele substituiu Pelé não apenas em campo, mas na memória de uma geração inteira.

Classificação Final
| Pos | Seleção | J | V | E | D | GP | GC | Saldo |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1° | 🇧🇷 Brasil | 6 | 5 | 1 | 0 | 14 | 5 | +9 |
| 2° | 🇨🇿 Tchecoslováquia | 6 | 4 | 1 | 1 | 13 | 8 | +5 |
| 3° | 🇨🇱 Chile | 6 | 4 | 0 | 2 | 10 | 8 | +2 |
| 4° | 🇾🇺 Iugoslávia | 6 | 3 | 1 | 2 | 9 | 8 | +1 |
| 5° | 🇩🇪 Alemanha Ocidental | 4 | 2 | 1 | 1 | 7 | 5 | +2 |
| 5° | 🇭🇺 Hungria | 4 | 2 | 1 | 1 | 8 | 6 | +2 |
| 5° | 🏴 Inglaterra | 4 | 1 | 1 | 2 | 4 | 5 | -1 |
| 5° | 🇺🇷 Uruguai | 4 | 1 | 0 | 3 | 4 | 9 | -5 |
10 Curiosidades da Copa 1962
01
Garrincha jamais perdeu uma partida em Copas do Mundo. Em 1958 e 1962, ele disputou 11 jogos e venceu todos. É o único jogador da história com esse feito.
02
O terremoto que quase cancelou tudo. Em 1960, o Chile foi devastado pelo maior terremoto já registrado pela humanidade (9,5 na escala Richter). Mesmo assim, o país organizou a Copa dois anos depois.
03
A Batalha de Santiago. O jogo Chile × Itália ficou para a história pela violência. Dois italianos foram expulsos nos primeiros 10 minutos, e a BBC chamou de “a pior partida de futebol já jogada”.
04
Amarildo, o improvável. Reserva de Pelé, o atacante do Botafogo fez uma Copa fantástica e se tornou ídolo nacional. O apelido carinhoso que ganhou: “Sucessor do Rei”.

05
A Taça Jules Rimet quase ficou no Brasil. Com o bicampeonato, o Brasil acumulou dois títulos no troféu original. Quem vencesse três vezes ficaria com a taça definitivamente — o que aconteceria em 1970.
06
Durante a partida entre Brasil e Inglaterra pelas quartas de final da Copa do Mundo de 1962, no Chile, um cachorro invadiu o campo e deu muito trabalho, driblando até mesmo o craque Garrincha. O jogador inglês Jimmy Greaves agachou-se, chamou o cachorro e conseguiu retirá-lo do gramado.

07
Vavá foi o segundo bicampeão artilheiro. O centroavante marcou 4 gols em 1958 e repetiu o mesmo número em 1962, tornando-se um dos raros jogadores a balançar as redes em duas finais de Copa.

08
A Copa mais fria da história. Disputada no inverno chileno, as temperaturas em algumas cidades-sede chegavam a 5°C durante os jogos — algo completamente incomum para os brasileiros acostumados ao calor.
09
Apenas 89 gols em 32 jogos. Uma das Copas com menor média de gols por jogo (2,78) da história, reflexo de esquemas mais defensivos que começavam a dominar o futebol mundial nos anos 60.
10
Nilton Santos e Didi — os veteranos bicampeões. Os dois ídolos que haviam brilhado na Suécia em 1958 repetiram o feito no Chile em 1962, tornando-se pilares de uma era dourada do futebol brasileiro.
O Legado de 1962
A Copa de 1962 consolidou o Brasil como a maior potência do futebol mundial. Dois títulos consecutivos — algo que só a Itália havia conquistado antes, em 1934 e 1938 — provavam que a geração de ouro brasileira não era fruto de sorte ou de um único talento excepcional, mas sim de um sistema coletivo, de um estilo de jogar que encantava o mundo.
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Para Garrincha, 1962 foi o ápice de uma carreira de pura magia. O homem que nasceu com as pernas tortas, que os médicos da CBF tentaram impedir de entrar na seleção em 1958, saiu do Chile como o melhor jogador do mundo. Sua história de superação e genialidade é até hoje um dos maiores símbolos do futebol brasileiro.
A Copa também marcou o início de uma nova era tática: o esquema brasileiro com dois alas (Garrincha e Zagallo) e dois centroavantes (Vavá e Amarildo) ficou gravado na memória como modelo de eficiência ofensiva. O 4-3-3 e o 4-2-4 que o Brasil usava seriam estudados e copiados por gerações de técnicos ao redor do globo.
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