Copa do Mundo 1966: a Queda do Brasil e o único título da Inglaterra
Na Inglaterra, Pelé foi caçado sistematicamente, o bicampeão caiu humilhado na fase de grupos e Bobby Moore ergueu a taça em Wembley. A Copa que mudou o futebol para sempre — e que preparou o Brasil para 1970.
Era 19 de julho de 1966. Goodison Park, Liverpool. O Brasil bicampeão precisava vencer Portugal para avançar às quartas. Nos primeiros minutos, o zagueiro João Morais aplicou uma entrada covarde em Pelé que o deixou mancando. O Rei saiu de campo. O Brasil perdeu por 3 a 1. E o bicampeão do mundo foi eliminado na fase de grupos pela primeira — e única — vez na história. Pelé declarou que nunca mais jogaria uma Copa do Mundo. O Brasil voltou para casa envergonhado. E então o país passou quatro anos reconstruindo tudo — para em 1970, no México, apresentar ao mundo o futebol mais bonito que alguém já viu.
O palco: a Inglaterra que inventou o futebol — e nunca havia sido campeã
A oitava Copa do Mundo aconteceu na Inglaterra, entre 11 e 30 de julho de 1966. Não havia lugar mais simbólico: os ingleses haviam inventado o futebol no século XIX, mas nunca conquistaram um título mundial. A pressão interna era enorme — e o país inteiro torcia para que a Copa em casa fosse o momento da redenção.
O Brasil chegava como bicampeão, com Pelé aos 25 anos e cercado de expectativas imensas. Mas o torneio inglês trouxe algo que o futebol ainda não havia visto em tamanha escala: uma proposta tática sistematicamente defensiva, com marcação intensa, violência física tolerada pela arbitragem e destruição do jogo coletivo. A Copa de 1966 marcou uma virada na história do futebol — e o Brasil pagou um preço alto por não ter se adaptado.
A caçada a Pelé — e a eliminação que chocou o mundo
Pelé foi, literalmente, caçado em campo durante a Copa de 1966. Nos dois jogos que disputou — contra a Bulgária e Portugal — recebeu falta após falta sem que os árbitros interferissem com eficácia. Contra a Bulgária, entrou com um joelho machucado e mesmo assim marcou de falta.
Mas foi contra Portugal, no jogo decisivo pelo Grupo 3, que a situação atingiu o limite. O zagueiro João Morais aplicou uma entrada covarde que deixou Pelé mancando ainda nos primeiros minutos. Sem condições de jogar, o Rei foi retirado de campo. O Brasil perdeu por 3 a 1 e foi eliminado na fase de grupos — a pior campanha da seleção em toda a história das Copas.
A eliminação gerou comoção nacional. A Confederação Brasileira convocou apenas seis dos 22 jogadores daquela Copa para a edição seguinte, em 1970.
- Brasil 2 × 0 Bulgária — vitória magra, Pelé e Garrincha marcaram
- Brasil 1 × 3 Hungria — Pelé poupado, derrota histórica
- Brasil 1 × 3 Portugal — Pelé lesionado em campo. Eliminação.
3° lugar no grupo. Eliminado na fase de grupos pela primeira e única vez na história.
Os jogos do Brasil — Grupo 3
| Rodada | Adversário | Placar | Detalhe |
|---|---|---|---|
| 1ª rodada | 🇧🇬 Bulgária | 2 × 0 | Pelé (falta), Garrincha |
| 2ª rodada | 🇭🇺 Hungria | 1 × 3 | Pelé poupado. Derrota histórica |
| 3ª rodada | 🇵🇹 Portugal | 1 × 3 | Pelé lesionado por Morais. Eliminação |
Eusébio — a Pantera Negra que encantou Wembley
Se para o Brasil a Copa de 1966 foi um pesadelo, para Portugal foi o palco de uma revelação ao mundo. Eusébio da Silva Ferreira, nascido em Moçambique e ídolo máximo do Benfica, transformou-se na grande estrela do torneio. Com velocidade explosiva, chute potentíssimo e uma elegância única, ele encantou o público inglês e terminou como artilheiro absoluto, com 9 gols em 6 jogos.
O ponto alto foi nas quartas contra a Coreia do Norte — a maior zebra da Copa, que havia eliminado a Itália. Os coreanos chegaram a abrir 3 a 0, mas Eusébio entrou em transe e marcou 4 gols para virar para 5 a 3. Uma das maiores atuações individuais da história das Copas.
Portugal chegou às semifinais, onde foi derrotado pela Inglaterra por 2 a 1. Eusébio deixou Wembley com lágrimas nos olhos — uma das imagens mais icônicas de toda a Copa de 1966.
Os protagonistas de 1966
A Final: Inglaterra 4 × 2 Alemanha — e o gol mais polêmico da história
A final aconteceu em 30 de julho de 1966, no lendário Estádio de Wembley, em Londres. Quase 97 mil pessoas estavam nas arquibancadas para ver dois dos maiores rivais do futebol europeu disputarem o troféu mais cobiçado do mundo.
A Alemanha abriu com Haller. A Inglaterra empatou com Hurst e virou com Peters. Nos acréscimos, Weber empatou para a Alemanha e levou o jogo à prorrogação. Na prorrogação veio o mais controverso gol da história: Hurst chutou, a bola bateu no travessão e ricocheteou para baixo. O árbitro assistente soviético Tofiq Bahramov sinalizou gol. Estudos modernos indicam que a bola provavelmente não cruzou a linha inteira. Mas o juiz marcou. A Inglaterra comemorou. E no último lance, Hurst fez o quarto — completando o único hat-trick da história das finais de Copa.
Linha do tempo: a final de Wembley
Alemanha: Haller (12'), Weber (90+2')
96.924 espectadores · Árbitro: Gottfried Dienst (Suíça)
Artilheiros da Copa 1966
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1°
9 gols 🥇 Artilheiro + MVPEusébio🇵🇹 Portugal
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2°
4 gols (3 na final)Geoff Hurst🏴 Inglaterra
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3°
4 golsValery Porkujan🇷🇺 União Soviética
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4°
3 golsBobby Charlton🏴 Inglaterra
-
4°
3 golsHelmut Haller🇩🇪 Alemanha Ocidental
O elenco brasileiro de 1966
| # | Jogador | Posição | Clube | Gols |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Manga | G | Bangu | — |
| 2 | Fidélis | D | Santos | — |
| 3 | Brito | D | Flamengo | — |
| 4 | Altair | D | Santos | — |
| 6 | Paulo Henrique | D | Santos | — |
| 5 | Denílson | M | Botafogo | — |
| 8 | Lima | M | Fluminense | — |
| 11 | Rildo | M | Santos | — |
| 10 | Pelé | A | Santos | 1 |
| 7 | Garrincha | A | Botafogo | 1 |
| 9 | Tostão | A | Cruzeiro | — |
| 14 | Papaléo | A | Fluminense | — |
Curiosidades da Copa 1966
Meses antes da Copa, o troféu foi furtado em Londres enquanto estava em exibição num evento. O roubo causou escândalo mundial. Dias depois, um cachorro chamado Pickles o encontrou embrulhado em jornal embaixo de uma moita num jardim no sul de Londres. Pickles virou celebridade nacional e ganhou prêmios. O ladrão nunca foi completamente identificado.
Estreante na competição, a Coreia do Norte eliminou a Itália na fase de grupos por 1 a 0 — uma das maiores zebras da história das Copas. Os italianos foram recebidos com tomates ao voltar para casa. Nas quartas, os coreanos chegaram a abrir 3 a 0 sobre Portugal antes de Eusébio virar para 5 a 3. Uma Copa de cinema.
O terceiro gol da Inglaterra na final — em que Hurst chutou no travessão e a bola ricocheteou — é o mais debatido da história. O árbitro assistente soviético Tofiq Bahramov sinalizou que entrou. Estudos com tecnologia moderna realizados décadas depois indicam que a bola provavelmente não cruzou a linha inteira. A Alemanha ainda discute. A Inglaterra não quer saber.
Seus três gols contra a Alemanha na final de Wembley são um recorde que permanece único em toda a história da competição — nenhum jogador antes ou depois chegou perto. Hurst não era nem titular no início do torneio; substituiu o lesionado Jimmy Greaves e nunca mais saiu do time.
Depois de ser sistematicamente derrubado sem proteção da arbitragem, Pelé declarou à imprensa que não voltaria a uma Copa do Mundo. Mas em 1970, no México, conquistou o tricampeonato com a que é considerada a melhor seleção da história. Menos mal que voltou atrás.
Pela primeira vez na história, torcedores em outros continentes puderam assistir aos jogos em tempo real via satélite — uma revolução para o futebol global. No Brasil, sem Pelé jogando, a cobertura foi especialmente dolorosa para quem acompanhou ao vivo a eliminação na fase de grupos.
Quando Portugal foi eliminado pela Inglaterra na semifinal, as câmeras registraram Eusébio chorando no banco de reservas. A Pantera Negra, que havia sido o melhor jogador do torneio, chorou como uma criança. A imagem virou um dos registros mais humanos e tocantes da história das Copas do Mundo.
O título em casa permanece como o único da história inglesa. Nas décadas seguintes, o país que inventou o futebol jamais repetiu o feito — tornando 1966 um momento sagrado e inalcançável para os torcedores ingleses. A Copa de 2026, com os EUA co-sediando, é a próxima grande esperança.
A humilhação da eliminação na fase de grupos gerou uma reforma completa na seleção brasileira. O resultado da reconstrução foi o time mais bonito da história: o escrete de 1970 com Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho e Gérson. A derrota de 1966 foi o combustível para o título mais belo do futebol mundial.
Tofiq Bahramov, do Azerbaijão (então parte da URSS), tornou-se famoso — e controverso — pela decisão de validar o gol que pode não ter entrado. Após sua morte, em 1993, o estádio nacional do Azerbaijão foi batizado em sua homenagem. Os ingleses o consideram herói. Os alemães, um vilão histórico.
📸 Sugestões de imagens para este post
O capitão inglês recebendo a taça Jules Rimet das mãos da Rainha Elizabeth II. A imagem símbolo da única conquista inglesa.
Buscar: "Bobby Moore World Cup trophy Queen Elizabeth Wembley 1966" no Wikimedia Commons
A Pantera Negra em lágrimas após a eliminação pela Inglaterra — uma das imagens mais humanas e tocantes da história das Copas.
Buscar: "Eusébio crying 1966 World Cup semifinal England Portugal" no Wikimedia Commons
O momento em que a bola de Hurst bate no travessão e ricocheia — o gol mais polêmico da história das Copas do Mundo.
Buscar: "Geoff Hurst goal crossbar 1966 World Cup final controversial" no Wikimedia Commons
O Rei sendo retirado do campo após a entrada de Morais — a imagem da eliminação brasileira e do momento mais triste de 1966 para o Brasil.
Buscar: "Pelé injured 1966 World Cup Portugal Brazil Goodison Park" no Wikimedia Commons
A foto do cão que encontrou a taça Jules Rimet roubada embaixo de uma moita em Londres — uma das histórias mais curiosas da Copa de 1966.
Buscar: "Pickles dog Jules Rimet trophy found 1966 World Cup England" no Wikimedia Commons
O Estádio de Wembley com quase 97 mil pessoas para a final entre Inglaterra e Alemanha Ocidental — a única final de Copa disputada em solo inglês.
Buscar: "Wembley Stadium 1966 World Cup final crowd" no Wikimedia Commons
O legado de 1966: a humilhação que preparou 1970
A Copa de 1966 foi um divisor de águas no futebol mundial. A vitória inglesa com um esquema sem pontas — apelidado de "wingless wonders" — influenciou gerações de técnicos europeus a adotarem sistemas mais físicos, táticos e defensivos. O futebol de arte, de drible e de improviso encontrou ali um dos maiores desafios de sua história.
Para o Brasil, a eliminação na fase de grupos foi o maior baque da história da seleção até aquele momento. Mas a derrota serviu de combustível para uma reconstrução monumental: entre 1966 e 1970, João Saldanha e depois Zagallo construíram uma nova equipe que apresentaria ao mundo o futebol mais belo já jogado numa Copa do Mundo.
Ironicamente, 1966 preparou 1970. A humilhação foi necessária para que o Brasil entendesse que talento puro, sem preparação física e sem adaptação tática, não era mais suficiente no futebol moderno. A lição foi aprendida. O resultado foi Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho e Gérson encantando o planeta quatro anos depois.
- 1930: 6º lugar · 1934: 14º · 1938: 3º lugar
- 1950: Vice — Maracanazo · 1954: Quartas
- 1958: 🏆 Campeão · 1962: 🏆 Bicampeão
- 1966: Fase de grupos — eliminação vexatória · A Copa que preparou 1970
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📖 Próximo da série: Copa 1970 — O Tricampeonato Perfeito
No México, o Brasil que nasceu da humilhação de 1966 jogou o futebol mais bonito que o mundo já viu. Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson e Rivelino construíram a Copa perfeita. 6 jogos, 6 vitórias, 19 gols.
Ver Copa 1970 →Fontes: Almanaque Completo da Copa do Mundo (Discovery Publicações, 2022) · Wikipedia · FIFA.com · CBF · Museu do Futebol · IFFHS · Placar
